Uma pesquisa da Pew Research divulgada em junho de 2026 revelou um dado que contrasta fortemente com o entusiasmo de Wall Street pela inteligência artificial: apenas 16% dos americanos acreditam que a IA terá um impacto positivo na sociedade ao longo dos próximos 20 anos. Ao mesmo tempo, 40% esperam consequências negativas e 67% afirmam que o governo americano não será capaz de regular o setor de forma eficaz.
Os números que preocupam o Vale do Silício
Os dados da pesquisa revelam uma desconexão profunda entre o ritmo acelerado de investimento em IA e a percepção do público que deveria, em última instância, se beneficiar dessas tecnologias. Enquanto bilhões de dólares são injetados em modelos de linguagem, agentes autônomos e plataformas de IA generativa, a maioria dos americanos não enxerga esse progresso como algo benéfico para suas vidas.
O ceticismo é especialmente pronunciado entre os jovens, um grupo frequentemente associado à adoção precoce de tecnologia: apenas 14% dos americanos com menos de 30 anos acreditam que a IA terá impacto positivo na sociedade. Entre os adultos acima de 65 anos, 75% nunca utilizam ferramentas de IA em seu cotidiano.
A desconfiança também é generalizada em relação às empresas do setor. 59% dos entrevistados não confiam que as empresas de tecnologia desenvolverão a IA de forma segura, e 67% acreditam que o ritmo de desenvolvimento da IA está ocorrendo de forma muito acelerada.
Uso cresce, mas confiança não acompanha
Um dos achados mais intrigantes da pesquisa é a contradição entre o crescimento de uso e a percepção negativa. Apesar do ceticismo, o uso das ferramentas de IA cresceu de forma expressiva: 44% dos adultos americanos usam o ChatGPT, mais que o dobro do registrado em 2023. O Gemini é utilizado por 24%, o Copilot por 17% e o Meta AI por 14%.
Além disso, 60% dos americanos afirmam ler rotineiramente resumos gerados por IA na internet, o que indica que a tecnologia já está integrada ao consumo cotidiano de informação, mesmo que de forma invisível ou inconsciente.
Esse fenômeno pode ser interpretado como uma adoção pragmática: as pessoas usam as ferramentas porque elas oferecem conveniência e eficiência, mas isso não significa que confiam no caminho que a tecnologia está tomando ou nas empresas que a desenvolvem. É possível usar um produto e, ao mesmo tempo, temer suas consequências em escala social.
Diferenças de gênero e geração
A pesquisa também identificou diferenças significativas entre grupos demográficos. 27% dos homens afirmam usar ferramentas de IA diariamente, contra 20% das mulheres. A diferença pode refletir tanto o acesso quanto o tipo de trabalho ou contextos em que cada grupo utiliza tecnologia.
Entre as gerações, o contraste é ainda mais acentuado. Enquanto os jovens adotam a tecnologia com mais facilidade no nível de uso, eles compartilham com os mais velhos o ceticismo sobre seus impactos futuros. Isso sugere que a familiaridade com as ferramentas não necessariamente gera confiança institucional nas empresas ou nas políticas de governança do setor.
O abismo entre Wall Street e Main Street
O levantamento expõe com clareza o abismo entre dois mundos: o dos investidores e executivos de tecnologia, para quem a IA representa a maior oportunidade de criação de valor das últimas décadas, e o do cidadão comum, que convive com a incerteza sobre empregos, privacidade e a velocidade das mudanças.
Analistas apontam que esse gap de percepção pode ter consequências práticas. Empresas que ignoram o sentimento público correm o risco de enfrentar reações regulatórias mais intensas, boicotes de consumidores e dificuldades de recrutamento. A confiança do público é um ativo que a indústria de tecnologia tem sistematicamente negligenciado ao priorizar o crescimento em detrimento da transparência.
Por outro lado, há quem argumente que o ceticismo público em relação a novas tecnologias é um padrão histórico. A internet, a automação industrial e os smartphones enfrentaram resistência similar em seus primeiros anos. A diferença, segundo críticos, é que a velocidade de implantação da IA não dá tempo para adaptação social.
Regulação: a questão sem resposta
Um dos dados mais reveladores da pesquisa diz respeito à regulação: 67% dos americanos acreditam que o governo não conseguirá regular a IA de forma significativa. O número reflete tanto a desconfiança nas instituições públicas quanto a percepção de que o setor de tecnologia move-se em uma velocidade que os legisladores simplesmente não conseguem acompanhar.
Nos últimos meses, o debate regulatório nos Estados Unidos avançou de forma fragmentada, com estados como Califórnia, Colorado e Texas propondo leis próprias na ausência de uma regulação federal abrangente. A Europa, por sua vez, já implementou o AI Act, mas sua eficácia ainda está sendo avaliada.
O que fica claro, tanto pelos dados da pesquisa quanto pelo contexto político atual, é que a questão de como governar a inteligência artificial está longe de ser resolvida. E enquanto a resposta não chega, a maioria dos americanos assiste ao avanço da tecnologia com desconfiança.
A reportagem completa foi publicada pelo TechCrunch em 17 de junho de 2026.



