Criar modelos de inteligência artificial foi o negócio do trilhão de dólares da última década. O próximo pode ser bem diferente: ajudar empresas a realmente colocar esses modelos para funcionar. Essa é a aposta que une a Anthropic, a Blackstone, a Hellman e Friedman e o Goldman Sachs em torno de uma nova empresa chamada Ode, avaliada em US$ 1,5 bilhão antes mesmo de completar um ano de operação.
A Ode nasceu da aquisição da Fractional AI, uma boutique de consultoria de IA que a Blackstone identificou como destaque entre as dezenas de empresas que tentavam ajudar corporações a adotar inteligência artificial. Em vez de apenas contratar a Fractional, a Blackstone decidiu estruturar um negócio mais ambicioso, trazendo a Anthropic como parceiro tecnológico e outros investidores de peso para constituir uma empresa capaz de atuar em escala global.
O modelo é simples na descrição, mas complexo na execução: a Ode envia engenheiros de IA altamente qualificados para dentro das operações de grandes empresas, identifica os casos de uso mais relevantes, constrói soluções customizadas e garante que elas realmente funcionem no dia a dia corporativo. É o que o setor chama de Forward-Deployed Engineers, ou FDE.
Por que a implementação é o gargalo
“Muitas empresas fizeram o trabalho correto de comprar assinaturas do ChatGPT Enterprise e de falar sobre IA em seus relatórios trimestrais”, explica Chris Taylor, CEO da Ode e co-fundador da Fractional AI. “Mas fazer isso funcionar de verdade, no nível que gera vantagem competitiva real, requer talento de IA aplicada de alto nível que simplesmente não está disponível no mercado.”
A escassez de profissionais capazes de traduzir os avanços dos modelos de linguagem em resultados concretos para empresas é um dos maiores gargalos da adoção de IA. Treinar um modelo de IA virou uma atividade cada vez mais acessível com as APIs das grandes labs. Mas integrar esse modelo nos processos internos de uma companhia, garantir que ele respeite as políticas de segurança corporativa, treine com os dados corretos e entregue resultados previsíveis é um trabalho muito mais difícil, e raramente é feito bem.
Segundo Eddie Siegel, Chief Technologist da Ode e co-fundador da Fractional, “o modelo importa, mas não é onde a maioria do esforço é gasto”. A maior parte do trabalho está em engenharia de sistemas, gestão de dados, integração com legados corporativos e na mudança de cultura organizacional necessária para que times adotem ferramentas de IA no seu fluxo diário.
Uma equipe de elite, com mais da metade de ex-fundadores
A Ode conta atualmente com 100 engenheiros, e mais de 50% deles são ex-fundadores de startups. A escolha não é casual: Taylor descreve o perfil da equipe como “special forces”, não como um exército regular. São generalistas de alto nível, capazes de navegar ambiguidade, aprender rápido e tomar decisões com dados incompletos. Exatamente o tipo de profissional que grandes corporações raramente conseguem contratar e reter.
“O cliente ideal para nós é aquele cujo CEO considera a implementação de IA como a primeira ou segunda prioridade estratégica”, diz Taylor. Isso filtra muito o mercado potencial. A Ode não quer clientes que estão explorando IA com curiosidade; quer aqueles que já decidiram que IA é central para sua competitividade e precisam executar com velocidade e profundidade.
Claude-first, mas não exclusivo
A empresa opera sob um princípio “Claude-first”: quando possível, usa a tecnologia da Anthropic como base. Isso faz sentido dado que a Anthropic é sócia do negócio. Mas a Ode não é exclusiva da Anthropic e pode usar outros modelos quando a situação demandar. Na prática, significa que o cliente paga pela implementação e pela expertise da Ode, mas não fica preso a um único fornecedor de modelo de IA.
Esse posicionamento também reflete uma realidade do mercado: os melhores modelos de IA mudam rápido. A Anthropic pode ter o Claude como líder em determinados benchmarks hoje, mas a situação pode mudar nos próximos seis meses. Uma empresa de implementação que fosse 100% dependente de um único provedor correria o risco de ficar desatualizada junto com ele.
A corrida dos concorrentes
A Ode não está sozinha nessa aposta. A OpenAI lançou uma iniciativa chamada The Deployment Company com modelo similar. Deloitte e Accenture, gigantes da consultoria, também criaram equipes dedicadas de Forward-Deployed Engineers. Até a Microsoft montou sua própria estrutura, chamada Microsoft Frontier Company, com US$ 2,5 bilhões de aporte e 6.000 especialistas dedicados.
A grande dúvida é se o mercado é grande o suficiente para comportar todos esses players ou se vai se consolidar rapidamente em torno de poucos vencedores. Taylor acredita que sim: “é bastante fácil imaginar isso como uma empresa trilionária algum dia, se executarmos bem”.
O argumento das empresas tradicionais como grandes vencedoras
Há uma ironia interessante na tese da Ode. Taylor argumenta que “as empresas não-AI vão ser as grandes vencedoras deste momento de IA”. Ou seja, quem mais vai se beneficiar da inteligência artificial não são as labs que criam os modelos, mas as empresas tradicionais dos setores de saúde, finanças, logística, manufatura e varejo que conseguirem adotá-la com eficácia.
Se isso for verdade, então faz todo sentido que os grandes fluxos de capital deixem de ir apenas para as labs de modelos fundamentais e passem a fluir também para quem ajuda as empresas tradicionais a navegar essa transição. O mercado de serviços de implementação de IA pode se tornar tão grande quanto, ou maior do que, o mercado dos próprios modelos.
O tempo dirá se a aposta da Anthropic, da Blackstone e de seus parceiros está certa. Mas o timing, pelo menos, é difícil de questionar: estamos no exato momento em que as empresas saíram da fase de exploração e precisam, de fato, executar.
A reportagem original foi publicada pelo TechCrunch em 15 de julho de 2026.



