A Anthropic, empresa de inteligência artificial criadora do assistente Claude, está em negociações com a Samsung para o desenvolvimento de um chip de IA personalizado. A informação foi confirmada pela própria Anthropic ao TechCrunch em 2 de julho de 2026, marcando mais um passo em uma tendência crescente entre as grandes empresas de IA: projetar seu próprio hardware para reduzir a dependência da Nvidia.
Segundo fontes próximas às negociações, a Anthropic e a Samsung ainda não definiram os detalhes técnicos do projeto, incluindo o caso de uso específico do chip, como ele seria integrado a servidores ou quais seriam suas especificações de consumo de energia. O estágio da conversa é, portanto, exploratório, mas o fato de a Anthropic confirmar publicamente o diálogo indica que o interesse é sério.
Por que a Anthropic quer seu próprio chip?
A resposta curta é: independência e custo. A resposta longa passa pela atual estrutura de poder do mercado de chips para IA, onde a Nvidia ocupa uma posição quase monopolista nos chips de treinamento e inferência de modelos de linguagem de grande escala (LLMs).
Os chips H100 e H200 da Nvidia são hoje os mais cobiçados do setor de tecnologia. Em 2024 e 2025, empresas de IA esperavam meses ou até um ano para receber unidades. A Anthropic, que opera modelos computacionalmente intensivos como os da família Claude, sente diretamente os efeitos dessa escassez: altos custos e incerteza no planejamento de capacidade computacional.
Segundo a própria Anthropic, a empresa mantém uma estratégia de hardware diversificada, usando chips de fornecedores como Google, Amazon e Nvidia. Mas ter um chip propriamente desenvolvido para suas necessidades específicas permitiria maior controle sobre desempenho, consumo de energia e, potencialmente, custos operacionais a longo prazo.
A Samsung como parceira estratégica
A escolha da Samsung não é aleatória. A empresa sul-coreana é uma das maiores fabricantes de semicondutores do mundo e já tem experiência no desenvolvimento de chips para IA de alto desempenho. A Samsung fabrica chips para a Nvidia e colabora com o Google no desenvolvimento de processadores customizados.
Além disso, a Samsung possui capacidade de fabricação própria nas suas fábricas de semicondutores (conhecidas como foundry), o que significa que um chip desenvolvido em parceria com a Anthropic poderia ser fabricado pela própria Samsung, sem depender de terceiros como a TSMC, que hoje domina a fabricação de chips de ponta.
Essa verticalização é um diferencial importante. A TSMC é o principal gargalo na cadeia de suprimentos de chips de IA, e ter acesso a uma alternativa de fabricação dá à Anthropic mais flexibilidade estratégica no longo prazo.
O contexto da corrida por chips próprios
A Anthropic não é a primeira nem será a última empresa de IA a buscar chips customizados. A OpenAI anunciou recentemente uma parceria com a Broadcom para criar um processador de inferência personalizado chamado “Jalapeño”. A Google tem seus TPUs (Tensor Processing Units) há mais de uma década. A Amazon Web Services desenvolveu os chips Trainium e Inferentia para cargas de trabalho de IA na nuvem. A Meta tem seus chips MTIA.
Cada uma dessas iniciativas segue a mesma lógica: chips de uso geral, mesmo os mais avançados da Nvidia, não são otimizados para as necessidades específicas de cada empresa. Um chip desenhado especificamente para rodar os modelos Claude da Anthropic poderia ser mais eficiente em tarefas de inferência, consumir menos energia por token processado e ser fabricado em maior quantidade sem depender das filas de alocação da Nvidia.
A trajetória de empresas como a Apple, que desenvolveu os chips da série M para seus computadores, e a Qualcomm, com seus processadores Snapdragon otimizados para IA em dispositivos móveis, mostra que chips personalizados podem oferecer vantagens significativas em relação ao hardware de prateleira.
O que este movimento significa para a Nvidia?
A curto prazo, pouco muda. A Nvidia continua sendo insubstituível para o treinamento de modelos de grande porte, e nenhum dos chips customizados desenvolvidos por empresas de IA até agora representa uma ameaça direta ao domínio da fabricante de Santa Clara no segmento de treinamento.
Onde a pressão começa a aparecer é na inferência, ou seja, no processo de rodar modelos já treinados para responder perguntas e executar tarefas. Chips customizados podem ser mais eficientes do que os GPUs da Nvidia para inferência, e é nesse segmento que o volume e os custos operacionais mais importam para empresas como a Anthropic, que atendem milhões de usuários diariamente.
Se empresas como Anthropic, OpenAI e Meta conseguirem chips customizados eficientes para inferência, a dependência da Nvidia migrará cada vez mais para o treinamento de novos modelos, que é um mercado menor em volume mas de altíssimo valor unitário.
Abril de 2026: quando a Anthropic começou a pensar em chips
Esta não é a primeira vez que a Anthropic sinaliza interesse em hardware proprietário. Em abril de 2026, a empresa já havia considerado o desenvolvimento de chips próprios como resposta à escassez de semicondutores que afetou o setor. A diferença agora é que as negociações evoluíram para um parceiro específico – a Samsung – e ganharam contornos mais concretos.
O momento é oportuno. O mercado de chips para IA está passando por uma reorganização significativa, com novos entrantes como a Groq, a Tenstorrent e a Cerebras ganhando tração como alternativas à Nvidia. A Anthropic, ao desenvolver um chip próprio em parceria com uma grande fabricante como a Samsung, teria mais controle sobre sua roadmap de hardware do que se dependesse exclusivamente de fornecedores externos.
O longo caminho do silício ao produto final
Por ora, a Anthropic e a Samsung seguem em fase de discussão. O desenvolvimento de um chip de IA personalizado, desde o projeto até a produção em escala, normalmente leva de dois a quatro anos e pode custar centenas de milhões de dólares. Portanto, mesmo que as negociações evoluam positivamente, qualquer chip resultante dessa parceria dificilmente chegaria ao mercado antes de 2028 ou 2029.
Ainda assim, o simples fato de a Anthropic estar explorando essa possibilidade com a Samsung muda a narrativa sobre o futuro do hardware de IA. As grandes empresas de modelos de linguagem estão deixando de ser apenas consumidoras de hardware e passando a ser protagonistas na definição das próximas gerações de chips para inteligência artificial. É o fim da era em que as empresas de IA simplesmente escolhiam entre o que a Nvidia, a AMD ou a Intel tinham disponível no catálogo.
A parceria potencial entre Anthropic e Samsung também sinaliza que a Coreia do Sul, por meio de sua gigante de tecnologia, quer um papel ativo na próxima fase da corrida de semicondutores para IA, disputando espaço com Taiwan (TSMC), Estados Unidos (Intel) e outros players emergentes no mercado global de chips.
Fonte original: Anthropic is discussing a new custom chip with Samsung – TechCrunch, 2 de julho de 2026.



