Maio de 2026 registrou o pico de demissões em massa no setor de tecnologia desde o ciclo de cortes de 2022 e 2023. Desta vez, porém, a inteligência artificial foi citada como justificativa principal por diversas empresas ao anunciar reduções de quadro. A narrativa dominante na mídia especializada sugeria que engenheiros de software seriam os mais vulneráveis: afinal, são eles os profissionais cujas tarefas – escrever código, revisar pull requests, depurar sistemas – parecem mais substituíveis por modelos de linguagem sofisticados.
Novos dados desafiam essa narrativa de forma direta. Uma análise da SignalFire, firma de venture capital que utiliza dados proprietários sobre carreiras de milhões de profissionais em mais de 80 milhões de empresas, mostra que os empregos de engenharia estão entre os mais resilientes do mercado de tecnologia, contrariando a percepção amplamente difundida.
Os números que contradizem a narrativa
Os dados da SignalFire revelam um quadro bastante diferente do que a cobertura midiática sobre demissões por IA sugere. Enquanto o volume geral de contratações no setor de tecnologia caiu 25% em comparação com os níveis de 2019, as vagas de engenharia apresentaram queda de apenas 11% no mesmo período. A diferença é expressiva e estatisticamente significativa.
Ainda mais revelador é o comportamento das grandes empresas de tecnologia em relação às novas contratações. Em 2025, engenheiros representaram 55% de todas as novas contratações nas chamadas “Tech Majors” – um aumento em relação aos 46% registrados em 2019. Em outras palavras, mesmo em um ambiente de contenção de custos e demissões motivadas por IA, as grandes empresas de tecnologia estão contratando proporcionalmente mais engenheiros agora do que antes do boom das ferramentas de IA generativa.
O dado mais surpreendente, no entanto, vem das startups em estágio inicial. Essas empresas – que tipicamente têm menos gordura orçamentária para queimar e são mais sensíveis a eficiências geradas por IA – contrataram 7% mais engenheiros em 2025 do que em 2019. Isso sugere que, longe de substituir engenheiros, as ferramentas de IA estão aumentando a produtividade individual a ponto de justificar mais contratações, não menos.
Por que os engenheiros são resilientes?
A explicação mais intuitiva é também a mais respaldada pelos dados: a IA não substitui engenheiros, ela os torna mais produtivos. Ferramentas como GitHub Copilot, Cursor, Devin e as diversas assistências de codificação baseadas em grandes modelos de linguagem (LLMs) aumentaram a capacidade de entrega de cada engenheiro individualmente, mas não eliminaram a necessidade de julgamento humano, arquitetura de sistemas, debugging de problemas complexos e tomada de decisão contextualizada.
Peter McCrory, da Anthropic, observou que não há “diferença material maior nas taxas de desemprego” entre engenheiros e outros grupos profissionais ao longo do período de ascensão das ferramentas de IA. Isso é coerente com a visão de que a IA funciona mais como um multiplicador de capacidades do que como um substituto direto para engenheiros qualificados.
Há também um fenômeno de demanda derivada em jogo. Para treinar, implantar, manter e melhorar sistemas de IA, as empresas precisam de engenheiros – especialmente de machine learning, infraestrutura de dados e confiabilidade de sistemas. A própria expansão da IA cria novas categorias de trabalho de engenharia que simplesmente não existiam há cinco anos.
Quem está, de fato, sendo mais afetado?
Se os engenheiros são relativamente protegidos, quem está sofrendo mais com a onda de demissões motivadas por IA? Os dados apontam para perfis de trabalho mais centrados em tarefas estruturadas e repetitivas: suporte ao cliente, moderação de conteúdo, análise de dados básica, funções administrativas e certas áreas de marketing de performance.
Essas categorias compartilham uma característica: suas tarefas são suficientemente bem definidas e documentadas para serem automatizadas por sistemas de IA com treinamento adequado. O trabalho de engenharia, por outro lado, envolve um alto grau de ambiguidade, criatividade técnica e adaptação constante a contextos novos – qualidades que os modelos de IA atuais ainda replicam de forma imperfeita.
A IA como criadora de empregos de engenharia
Uma das ironias do momento atual é que a inteligência artificial – apresentada por muitos como a ameaça existencial aos empregos de engenharia – pode estar, na prática, sendo uma das maiores criadoras de novas posições nessa área. A corrida das empresas para desenvolver, integrar e escalar sistemas de IA exige talentos técnicos em quantidade e qualidade crescentes.
Isso não significa que todos os engenheiros estejam igualmente protegidos. Há evidências de que engenheiros juniores com habilidades mais genéricas enfrentam mais competição, tanto de outros candidantes quanto de sistemas semi-automatizados de geração de código. Mas engenheiros sênior com experiência em sistemas distribuídos, segurança, arquitetura de software e áreas emergentes como engenharia de agentes de IA estão, na prática, em um mercado aquecido.
O que esperar daqui para frente
O pico de demissões de maio de 2026 provavelmente não é o último. As empresas continuarão buscando eficiências operacionais, e a IA continuará sendo usada como justificativa – seja como causa real ou como narrativa conveniente para cortes que teriam acontecido de qualquer forma.
Mas os dados da SignalFire oferecem uma perspectiva importante para quem trabalha ou pretende trabalhar como engenheiro: a apocalipse dos empregos de engenharia, ao menos por ora, não se materializou. O mercado continua demandando profissionais técnicos qualificados, e a participação dos engenheiros no total de contratações está, paradoxalmente, aumentando em um ambiente de cortes generalizados.
Para profissionais que acompanham o mercado de tecnologia, a mensagem é clara: adaptar-se ao ecossistema de ferramentas de IA e trabalhar ao lado delas, e não contra elas, é a estratégia mais sólida. O engenheiro que domina as ferramentas de IA generativa para ampliar sua própria capacidade de entrega é, segundo os dados, aquele que o mercado continuará recompensando.
Leia a matéria original (em inglês) no TechCrunch.



