A KPMG, uma das quatro maiores firmas de auditoria e consultoria do mundo, removeu um relatório sobre inteligencia artificial apos descobrir que o documento continha informações falsas, geradas por alucinações de sistemas de IA. O episodio levanta questoes críticas sobre a confiabilidade de pesquisas corporativas produzidas com auxilio de ferramentas de IA generativa e o que acontece quando grandes organizacoes abdicam da supervisao humana no processo de criacao de conteudo.
O relatório, intitulado “Redefining excellence in the age of agentic AI” (Redefinindo a excelencia na era da IA agêntica), havia sido publicado em outubro de 2025. Mas foi em junho de 2026 que o grupo de pesquisa GPTZero identificou inumeras imprecisoes no documento, revelando que afirmacoes sobre o uso de IA por diversas organizacoes eram, nas palavras de alguns dos citados, “inverdades ou enganosas.”
Quem contestou as afirmacoes
Quatro organizacoes de grande porte disputaram as alegacoes feitas pela KPMG no relatório:
- UBS – banco suico de investimentos
- NHS (National Health Service) – sistema público de saude do Reino Unido
- Ferrovias Federais Suicas
- Transport for London – autoridade de transportes de Londres
As entidades afirmaram que as descricoes do relatório sobre como estavam utilizando IA em suas operacoes eram incorretas ou exageradas. Nenhuma delas havia autorizado a KPMG a usar seu nome como caso de uso da forma descrita no documento.
O que a KPMG disse
Em nota oficial, um porta-voz da KPMG declarou: “Esperamos que todos os nossos colaboradores sigam nossas diretrizes sobre o uso responsavel de IA, incluindo supervisao humana para validar conteudo e verificar fontes independentes.” A declaracao reconhece implicitamente que houve falha no processo de supervisao, sem, no entanto, detalhar como ou por que o documento passou pelos filtros internos de qualidade da empresa sem que os erros fossem detectados.
Um padrao preocupante no mercado
O caso da KPMG não e isolado. A EY (Ernst & Young), outra das quatro grandes consultorias globais, retirou no mes anterior um relatório sobre programas de fidelidade que continha notas de rodape inventadas e outras alucinações de IA. A coincidencia de dois episodios semelhantes em grandes firmas de consultoria dentro de poucas semanas sugere que o problema e sistemico, e não uma anomalia pontual.
O grupo GPTZero, que identificou as falhas no relatório da KPMG, tem se especializado em detectar conteudos gerados por IA. A organizacao tem alertado o mercado para os riscos de publicacoes corporativas que usam IA sem supervisao adequada, mas ate agora poucos grandes nomes haviam sido pegos em situacoes tao expostas.
O problema das alucinações em contextos profissionais
Alucinações de IA, o fenômeno em que modelos de linguagem geram informações falsas apresentadas como fatos, sao conhecidas ha anos pelos pesquisadores da area. O que mudou e a escala de adocao dessas ferramentas em processos profissionais críticos, incluindo a producao de relatórios de consultoria destinados a clientes corporativos e ao mercado.
Em um ambiente de pesquisa academica, uma alucinacao pode ser detectada por revisores pares. Em um relatório de consultoria, ela pode influenciar decisoes estrategicas de executivos, politicas publicas ou ate alocacoes de capital. O caso da KPMG ilustra com clareza os riscos de tratar a IA generativa como uma ferramenta de producao autonoma de conteudo, em vez de um assistente que requer supervisao rigorosa.
Confianca e reputacao em risco
Para as grandes consultorias, a reputacao e o ativo mais valioso. Clientes as contratam, em grande medida, pela percepcao de que seus analistas e consultores produzem insights baseados em pesquisas solidas e verificadas. Um relatório retirado por conter dados inventados e o tipo de incidente que pode corroer essa confianca de forma duradoura.
A situacao e agravada pelo fato de que as organizacoes citadas incorretamente pela KPMG sao nomes de grande visibilidade global. O NHS, por exemplo, e um dos sistemas de saude mais monitorados do mundo, e qualquer alegacao sobre seu uso de IA esta sujeita a escrutinio intenso. O mesmo vale para o UBS, que opera em mercados altamente regulados onde a precisao das informações publicas e uma questao de conformidade regulatoria.
O que as empresas precisam aprender
O episodio oferece licoes importantes para qualquer organizacao que esteja usando IA generativa em processos de producao de conteudo profissional. Algumas das boas praticas que especialistas em governanca de IA recomendam incluem:
- Verificacao independente de cada afirmacao factual gerada por IA antes da publicacao
- Politicas claras sobre o uso declarado de IA na producao de documentos externos
- Revisao humana especializada, especialmente quando nomes de terceiros sao citados
- Testes de validacao com as proprias organizacoes mencionadas, antes da publicacao
Um alerta para o mercado de IA agêntica
O relatório retirado pela KPMG tinha como tema a “IA agêntica”, o modelo em que sistemas de IA operam com maior autonomia, tomando decisoes e executando tarefas com supervisao humana minima. E ironico que um documento sobre a era da IA autonoma tenha sido comprometido justamente pela falta de supervisao humana em seu processo de criacao.
O incidente chega em um momento em que o mercado de consultoria corre para integrar ferramentas de IA em seus processos produtivos, pressionado pela promessa de ganhos de eficiencia. Mas a velocidade dessa adocao pode estar superando a capacidade das empresas de criar controles adequados. O caso KPMG e mais um sinal de que a corrida pela IA nos negocios precisa ser acompanhada de processos robustos de governanca, ou os custos reputacionais podem superar em muito os ganhos de produtividade.
Fonte: TechCrunch – KPMG pulls report on AI usage due to apparent hallucinations



