A startup de recrutamento e treinamento com inteligência artificial Mercor está em negociações para captar uma nova rodada de investimentos a uma avaliação de 20 bilhões de dólares, segundo informações da Bloomberg. O número representa o dobro do valuation de 10 bilhões de dólares alcançado pela empresa em outubro de 2025, quando concluiu sua rodada Série C de 350 milhões de dólares.
As conversas ainda estão em estágios iniciais, mas a Bloomberg reportou que a Mercor informou a potenciais investidores que já recebeu um termo de intenções (term sheet) à nova avaliação. O movimento sinalizaria um dos saltos de valuation mais expressivos do setor de IA aplicada a recursos humanos nos últimos meses.
Crescimento acelerado em receita
O fundador e CEO da empresa, Brendan Foody, anunciou pelo X (antigo Twitter) que a Mercor atingiu uma taxa de receita anualizada de 2 bilhões de dólares, representando um crescimento de 100% em apenas quatro meses. O dado, combinado com o interesse de novos investidores, indica que a empresa superou turbulências recentes e voltou a um ciclo de expansão acelerada.
Para uma startup que ainda não concluiu uma rodada Série D formal, atingir a marca de 2 bilhões de dólares em ARR (taxa de receita recorrente anualizada) coloca a Mercor em um patamar normalmente associado a empresas muito mais antigas e já consolidadas. O crescimento vertiginoso reflete tanto a demanda crescente por soluções de IA aplicadas a contratação e treinamento quanto a consolidação da posição da empresa num segmento em rápida expansão.
A aquisição da Deeptune
Junto com os dados de crescimento financeiro, a Mercor anunciou a aquisição da Deeptune, empresa especializada em treinamento de agentes de IA. A transação representa uma aposta da Mercor em expandir sua atuação para além da intermediação de talentos e avaliação de candidatos, incorporando capacidade de desenvolvimento e treinamento de agentes autônomos.
Toda a equipe da Deeptune se incorporará à Mercor como parte do acordo. O movimento é consistente com a direção que a empresa tem seguido: tornar-se não apenas uma plataforma de recrutamento impulsionada por IA, mas um ecossistema completo para o futuro do trabalho mediado por inteligência artificial.
A aquisição também tem um aspecto estratégico relevante. Com a proliferação de agentes de IA no ambiente corporativo, as empresas enfrentam um desafio crescente: como treinar, avaliar e monitorar o desempenho desses agentes de forma confiável? A Deeptune atuava exatamente nesse nicho, e absorver essa capacidade coloca a Mercor numa posição privilegiada para atender a demanda emergente.
Turbulências recentes
O crescimento expressivo de 2026 contrasta com um início de ano difícil. Em abril, a Mercor sofreu uma violação de dados que expôs informações de usuários, gerando desconforto entre clientes e potenciais parceiros. O incidente foi seguido por ações judiciais movidas por trabalhadores contratados via plataforma, conforme reportado pelo Business Insider.
Apesar do impacto inicial, a empresa parece ter contido os danos reputacionais com relativa rapidez, pelo menos do ponto de vista dos negócios. Os números de receita divulgados pelo CEO sugerem que a base de clientes corporativos se manteve fiel e continuou crescendo mesmo durante o período mais crítico.
O que é a Mercor e por que ela importa
Fundada há alguns anos, a Mercor construiu sua proposta de valor em torno de uma premissa simples, mas poderosa: usar inteligência artificial para tornar o processo de contratação mais rápido, mais preciso e mais justo. A plataforma avalia candidatos por meio de testes técnicos, entrevistas automatizadas e análise de desempenho, gerando dados estruturados que ajudam empresas a tomar decisões de contratação com mais confiança.
Com o avanço dos agentes de IA no ambiente de trabalho, o modelo de negócios da empresa evoluiu para incluir também o treinamento e a avaliação de agentes autônomos. A lógica é que, num mundo em que sistemas de IA realizam cada vez mais tarefas antes reservadas a humanos, o “recrutamento” e o “treinamento” de agentes seguem processos estruturados semelhantes aos de pessoas.
Essa extensão do modelo para o universo dos agentes representa uma aposta de longo prazo com potencial enorme. Se a automação avançar conforme previsto por analistas do setor, as empresas precisarão de infraestrutura robusta para gerenciar frotas de agentes de IA da mesma forma que hoje gerenciam equipes humanas. A Mercor quer ser essa infraestrutura.
O contexto do mercado de IA em 2026
A possível avaliação de 20 bilhões de dólares da Mercor acontece num ecossistema de IA que continua atraindo capital em volumes expressivos, mesmo com o aperto das condições macroeconômicas em outras partes da economia. Quase 90 novas startups alcançaram o status de unicórnio em 2026 até este momento, com a maioria concentrada em aplicações de inteligência artificial.
O segmento de IA aplicada a recursos humanos e ao mercado de trabalho tem se mostrado especialmente resiliente. Empresas que automatizam triagem, avaliação e integração de talentos, ou que treinam equipes para trabalhar ao lado de sistemas de IA, encontram demanda crescente de corporações que precisam se adaptar rapidamente a um ambiente de trabalho em transformação acelerada.
A dobrada de valuation em menos de um ano não é exceção nesse cenário. Outras startups de IA igualmente jovens atingiram avaliações multibilionárias em janelas de tempo similares, refletindo tanto o apetite dos investidores quanto a percepção de que os vencedores nessa corrida poderão capturar mercados de trilhões de dólares nas próximas décadas.
Os próximos passos
Com a negociação da nova rodada em andamento, a Mercor deve ter capital suficiente para acelerar tanto o desenvolvimento de produto quanto a expansão internacional. A aquisição da Deeptune sugere que a empresa pretende construir capacidades próprias de pesquisa e desenvolvimento, em vez de depender apenas de modelos e ferramentas de terceiros.
Os próximos meses devem revelar não apenas o fechamento ou não da rodada de financiamento, mas também como a Mercor planeja usar o capital para avançar numa disputa que atrai cada vez mais competidores, de startups agressivas a divisões especializadas das grandes empresas de software corporativo.
O mercado de recrutamento e gestão de talentos com IA está em plena ebulição. A Mercor, com seu foco crescente em agentes autônomos e seu histórico de crescimento acelerado, posiciona-se como uma das apostas mais relevantes nessa transformação. A rodada que está sendo negociada pode ser o catalisador para o próximo salto de escala da empresa.
A cobertura original desta história está disponível no TechCrunch.



