Enquanto Microsoft, Google e Salesforce correm para adicionar camadas de inteligência artificial em produtos que existem há décadas, Bhavin Turakhia decidiu ignorar essa corrida e construir algo do zero. O empreendedor indiano de 46 anos, que já fundou empresas como Directi, Radix, Titan e Zeta, anunciou que investiu US$ 30 milhões do próprio bolso para criar o Neo, uma plataforma de trabalho corporativo que tem a IA como pilar central desde o primeiro dia de desenvolvimento.
A startup, lançada internamente em abril de 2026, conta com uma equipe de 45 funcionários – 18 deles engenheiros – e tem a ambição de competir diretamente com o Microsoft 365, o Google Workspace e outros pacotes de produtividade estabelecidos no mercado B2B. Diferente de seus concorrentes, o Neo não nasceu como uma suíte de aplicativos tradicional com IA adicionada: ele foi concebido como uma plataforma nativa de inteligência artificial desde o início. A notícia foi reportada pelo TechCrunch em 1 de julho de 2026.
A filosofia do zero
A analogia favorita de Turakhia ilustra bem sua visão: “Se você quer construir um iPhone, não pode pegar as peças de um Nokia e convertê-las em iPhone.” A frase, dita ao TechCrunch, resume a aposta arriscada mas coerente do empreendedor. Em vez de integrar IA em ferramentas legadas, o Neo foi projetado para que cada funcionalidade – gerenciamento de projetos, criação de documentos, armazenamento de arquivos e comunicação em equipe – funcione de forma integrada e com IA como componente nativo.
O Neo é descrito como um sistema “model-agnostic”, ou seja, independente de fornecedor de modelos de linguagem. A empresa não está presa ao GPT-4 da OpenAI, ao Gemini do Google ou a qualquer outro modelo específico. Essa flexibilidade é uma proteção contra o risco de lock-in tecnológico que outras empresas enfrentam ao apostar tudo em um único provedor de IA. Para clientes corporativos com requisitos rigorosos de conformidade regulatória, essa independência é um diferencial significativo.
Um empreendedor com histórico de saídas valiosas
Bhavin Turakhia não é um nome desconhecido no ecossistema global de tecnologia. Com o irmão Divyank Turakhia, ele co-fundou o grupo Directi em Mumbai nos anos 2000, que chegou a ser vendido por US$ 900 milhões. Mais recentemente, a Zeta, fintech focada em software bancário corporativo, tornou-se unicórnio com avaliação de mais de US$ 1,5 bilhão. O Neo representa sua quinta grande empreitada, e o primeiro projeto em que ele aposta capital próprio de forma tão expressiva.
A escolha de financiar o projeto com US$ 30 milhões do próprio bolso não é apenas simbólica. Turakhia afirmou ao TechCrunch que ainda não abriu conversas com investidores externos, embora a empresa possa buscar capital externo no futuro. Por ora, o foco está em construir o produto certo, sem a pressão de métricas de curto prazo que o capital de risco frequentemente impõe.
O desenvolvimento acelerado com IA
Uma das revelações mais interessantes sobre o Neo é como o produto foi desenvolvido. Turakhia afirma que a plataforma foi construída em três meses usando IA extensivamente no processo de engenharia – o mesmo trabalho levaria um ano com equipes de desenvolvimento tradicionais, segundo ele. Isso não é coincidência: é uma demonstração prática do argumento central do produto. Se a IA pode multiplicar a produtividade de desenvolvedores, o Neo quer ser a ferramenta que faz isso para todos os outros profissionais corporativos.
A empresa planeja expandir o time para aproximadamente 100 funcionários até o final de 2026. O foco inicial está em empresas de médio porte nos setores de tecnologia, consultoria e serviços profissionais – exatamente o perfil de cliente que mais valoriza ferramentas de produtividade integradas e está mais disposto a experimentar alternativas às grandes plataformas consolidadas.
O tamanho do mercado e as chances reais de sucesso
Competir com Microsoft e Google no mercado de software corporativo é uma das apostas mais arriscadas que um empreendedor pode fazer. Essas empresas têm décadas de relacionamentos com clientes empresariais, contratos de longo prazo, dados acumulados e equipes de vendas globais. O Neo está chegando sem nada disso.
Mas Turakhia tem uma perspectiva pragmática sobre as chances do projeto. “Mesmo que a gente termine com 2% a 5% de participação de mercado, isso é maior do que tudo que já construí até agora”, disse ao TechCrunch. A afirmação pode parecer modesta, mas quando aplicada a um mercado global de software corporativo avaliado em centenas de bilhões de dólares, até uma fatia pequena representa uma empresa de grande porte.
O mercado de suítes de produtividade corporativa é dominado pelo Microsoft 365, com mais de 400 milhões de usuários pagos. O Google Workspace ocupa o segundo lugar, com forte presença em startups e empresas de médio porte. Para que o Neo consiga penetrar nesse mercado, precisará oferecer uma experiência significativamente superior, especialmente em termos de integração de IA e facilidade de uso.
IA como diferencial competitivo, não como recurso adicional
A proposta central do Neo vai além de simplesmente “ter IA”. A plataforma busca uma integração profunda onde a inteligência artificial não é um botão de “gerar texto” em um documento, mas uma camada que permeia todo o fluxo de trabalho corporativo. Isso inclui sugestões contextuais em gerenciamento de projetos, automação de tarefas repetitivas e síntese inteligente de documentos.
A independência de modelos é especialmente relevante para clientes corporativos preocupados com privacidade de dados e conformidade regulatória. Empresas de setores regulados como financeiro e saúde podem querer usar modelos rodando em infraestrutura própria ou modelos open source, e o Neo promete suportar essa flexibilidade sem travar o cliente em um único fornecedor.
Um mercado em transformação
A aposta de Turakhia chega em um momento em que o mercado de software corporativo está em plena transformação. Ferramentas como Notion, Linear e Figma já provaram que é possível desafiar players estabelecidos com uma experiência de produto superior. A diferença agora é que a IA adiciona uma camada extra de complexidade e de oportunidade.
Startups que conseguirem integrar IA de forma genuinamente útil, e não apenas como marketing, têm a chance de redefinir como equipes corporativas trabalham. O Neo, com seu DNA de IA desde o primeiro dia e seu fundador com histórico comprovado de construção e saída de empresas, está posicionado para ser um dos experimentos mais relevantes do segmento de produtividade em 2026.



