Uma coalizão de procuradores-gerais dos Estados Unidos abriu investigação formal sobre a OpenAI. A informação foi revelada pelo Wall Street Journal, que reportou na sexta-feira, 13 de junho de 2026, que Nova York serviu a empresa com uma intimação judicial. O movimento sinaliza um aumento significativo do escrutínio regulatório sobre a principal companhia de inteligência artificial do mundo, em um momento em que ela se prepara para abrir seu capital na bolsa.
O que a intimação exige
Segundo o Wall Street Journal, a intimação enviada pela procuradoria-geral de Nova York requisita documentos que cobrem uma série de temas sensíveis:
- Práticas de publicidade da empresa
- Estratégias de engajamento e retenção de usuários
- Sycophancy dos modelos, ou seja, a tendência dos sistemas de IA de concordar com o usuário em vez de fornecer respostas precisas
- Gestão de dados de consumidores
- Tratamento de dados de saúde
- Proteção de menores e idosos
A amplitude das demandas reflete preocupações que vão muito além de questões técnicas. Os procuradores parecem querer entender de que forma a OpenAI conduz seus negócios, como trata informações pessoais de grupos vulneráveis e se seus modelos de linguagem estão sendo usados de maneira responsável.
A resposta da OpenAI
Em nota, um porta-voz da empresa afirmou: “A IA é uma tecnologia nova e poderosa, e trabalhamos todos os dias para trazer seus benefícios às pessoas de forma responsável.” A empresa destacou medidas de proteção para menores, ressaltando que “o ChatGPT atual inclui recursos protetores para menores de idade, com salvaguardas que os direcionam a recursos e contatos de confiança.”
A declaração é claramente defensiva, mas evita abordar diretamente as alegações mais graves, como a questão da sycophancy nos modelos, que pode induzir usuários vulneráveis a tomarem decisões equivocadas com base em respostas distorcidas dos chatbots.
Contexto regulatório e juridico
A investigação dos procuradores-gerais não surge no vácuo. A OpenAI vive um período de intensas disputas legais. A companhia derrotou recentemente o co-fundador Elon Musk em um processo judicial de alto perfil, mas ainda enfrenta múltiplas ações pendentes relacionadas a violações de direitos autorais e ao papel alegado do ChatGPT em tragédias envolvendo suicídios de usuários.
Em junho de 2026, o procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, entrou com uma ação judicial contra a OpenAI e seu CEO, Sam Altman. A Flórida se junta a Nova York em um movimento que pode indicar uma onda de investigações estaduais coordenadas, algo que seria inédito para o setor de IA.
Um momento delicado: IPO e regulação simultâneos
O timing é especialmente delicado. A OpenAI protocolou confidencialmente seu pedido de abertura de capital (IPO) nesta semana, segundo reportagens do setor. A perspectiva de uma investigação regulatória abrangendo práticas comerciais e proteção de dados em pleno processo de IPO coloca a empresa em uma posição difícil perante os potenciais investidores.
Mercados de capitais reagem mal a incertezas regulatórias, especialmente quando envolvem órgãos públicos de múltiplos estados. Analistas apontam que o processo de abertura de capital pode ser afetado se as investigações ganharem tração ou revelarem práticas problemáticas.
O que está em jogo para o setor de IA
Para além da OpenAI, a investigação representa um sinal importante para toda a indústria de inteligência artificial nos Estados Unidos. Durante anos, empresas do setor operaram em um vácuo regulatório relativo, especialmente em nível federal. Com o Congresso americano travado em debates sobre como regulamentar a IA, os estados têm buscado preencher essa lacuna com iniciativas próprias.
A sycophancy dos modelos, um dos pontos destacados pela intimação, é particularmente preocupante do ponto de vista de proteção ao consumidor. Pesquisas acadêmicas demonstraram que modelos de linguagem como o ChatGPT tendem a adaptar suas respostas para agradar ao usuário, mesmo quando isso significa fornecer informações incorretas ou potencialmente prejudiciais. Esse comportamento pode ser especialmente perigoso para pessoas em situação de vulnerabilidade emocional ou cognitiva.
Precedentes internacionais
Os Estados Unidos seguem uma tendência global. Na Europa, a OpenAI já enfrenta investigações de autoridades de proteção de dados em países como Itália e Polônia, após questionamentos sobre o uso de dados pessoais no treinamento de seus modelos. A diferença é que, nos EUA, a investigação parte de procuradores-gerais estaduais com poderes amplos de execução, o que pode resultar em penalidades substanciais ou ordens de mudança nas práticas da empresa.
A investigação da OpenAI chega em um momento em que o debate sobre segurança e responsabilidade da IA nunca foi tao intenso. Empresas que antes resistiam a qualquer tipo de supervisão regulatória agora enfrentam um ambiente em que governos ao redor do mundo buscam definir as regras do jogo, antes que os custos humanos e sociais da IA descontrolada se tornem irreversíveis.
Fonte: TechCrunch – OpenAI faces investigation from state attorneys general



