Uma decisão tomada por unanimidade pelo Conselho Diretor da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) vai mudar a forma como o espectro de radiofrequência de 6 GHz é usado no Brasil, com impacto direto sobre roteadores Wi-Fi de nova geração. Aprovada em 11 de agosto de 2026 e reportada pelo Canaltech, a medida reserva a porção superior dessa faixa para serviços móveis pessoais, ou seja, para redes celulares, reduzindo o espaço disponível para as tecnologias Wi-Fi 6E e Wi-Fi 7 no país.
A mudança, formalizada nos Acórdão nº 203 e Ato nº 10.400 da Anatel, entra em vigor de forma obrigatória a partir de 1º de março de 2027. Até lá, equipamentos já certificados continuam em operação, mas o setor de fabricantes de roteadores e dispositivos de rede sem fio terá de se adaptar às novas regras brasileiras, que divergem do padrão adotado nos Estados Unidos e na Europa.
Como a faixa de 6 GHz está sendo dividida
O espectro de 6 GHz abrange uma faixa de frequências que vai de 5.925 MHz até 7.125 MHz. Até agora, toda essa extensão estava disponível para uso por Wi-Fi no Brasil, seguindo o padrão adotado pelos EUA e por boa parte dos países europeus. Com a decisão da Anatel, a divisão passa a ser a seguinte:
- De 5.925 MHz a 6.425 MHz: reservada para Wi-Fi e outras tecnologias de acesso sem fio de curto alcance, mantendo uma faixa operacional para as redes locais;
- De 6.425 MHz a 7.125 MHz: destinada ao Serviço Móvel Pessoal, para que as operadoras de telefonia celular utilizem na expansão e melhoria de suas redes de comunicação.
Em termos práticos, isso significa que o Brasil passa a ter menos espectro disponível para redes Wi-Fi do que os EUA e a Europa, onde a faixa completa de 6 GHz permanece aberta para uso sem fio local. Para tecnologias como o Wi-Fi 7, que utiliza a banda integral de 6 GHz para atingir velocidades máximas, a restrição representa uma limitação técnica concreta para quem usa ou planeja usar esses equipamentos no território brasileiro.
Por que o Wi-Fi 6E e o Wi-Fi 7 são afetados
O Wi-Fi 6E foi o primeiro padrão a usar a faixa de 6 GHz para comunicação sem fio, introduzido como uma extensão natural do Wi-Fi 6 (802.11ax). A vantagem era simples: com mais espectro disponível, menos congestionamento nas faixas tradicionais de 2,4 GHz e 5 GHz, resultando em conexões mais rápidas e estáveis, especialmente em ambientes com muitos dispositivos conectados simultaneamente, como escritórios, apartamentos e condomínios residenciais.
O Wi-Fi 7 (802.11be), lançado mais recentemente e já presente em roteadores premium disponíveis no mercado brasileiro, vai além: usa a faixa de 6 GHz como canal principal para transmissões de alta capacidade, podendo atingir velocidades teóricas de até 46 Gbps em condições ideais. Com a restrição da Anatel, esses roteadores não poderão aproveitar toda a faixa para a qual foram projetados quando instalados no Brasil, operando com capacidade reduzida em comparação ao que oferecem em outros países.
Os estudos técnicos realizados pela própria Anatel revelaram a dimensão do problema quando as duas tecnologias tentam coexistir sem coordenação na mesma faixa de frequência. Em determinados cenários simulados, a interferência pode causar uma perda superior a 90% na transmissão do Wi-Fi. Em casos mais extremos dos modelos analisados, o Wi-Fi pode perder até 100% da capacidade de transmissão, enquanto o sistema móvel ainda sofre uma degradação de até 30%. Para evitar esse cenário prejudicial para ambos os lados, a agência optou pela separação formal das faixas.
O que muda para quem já tem roteadores Wi-Fi 6E ou Wi-Fi 7
Equipamentos já adquiridos e certificados antes de março de 2027 não serão imediatamente afetados pela decisão. A Anatel prevê um período de transição durante o qual os dispositivos existentes continuarão funcionando normalmente, com adaptações necessárias apenas durante manutenções periódicas ou renovações de certificação junto ao órgão regulador.
No entanto, para novos roteadores que serão comercializados no Brasil a partir de 2027, os fabricantes precisarão adequar seus produtos às normas locais. Isso pode significar versões especificamente desenvolvidas para o mercado brasileiro, com firmware ou hardware configurado para limitar o uso da porção superior de 6 GHz. Roteadores importados diretamente de outros países poderão operar fora das normas brasileiras, situação que já ocorre em menor escala com alguns modelos trazidos por consumidores que viajam ou compram em sites internacionais.
Por que as operadoras ganharam esse espaço
A decisão da Anatel reflete uma disputa que existe em vários países sobre como alocar o espectro de 6 GHz, uma faixa considerada extremamente valiosa tanto para redes sem fio locais quanto para celulares. Nos EUA e na Europa, o Wi-Fi levou vantagem e recebeu a faixa completa. No Brasil, as operadoras de telefonia celular argumentaram que precisavam do espectro superior para viabilizar a expansão do 5G e, futuramente, do 6G no país.
O argumento técnico das operadoras foi reforçado pelos próprios estudos de interferência da Anatel: a coexistência sem coordenação entre Wi-Fi e sistemas móveis na mesma faixa de frequência é tecnicamente muito problemática. A solução de dividir a faixa foi apresentada como o caminho que menos prejudica ambas as tecnologias, ainda que o Wi-Fi perca mais espectro do que as operadoras perdem em termos relativos.
O que a Anatel planeja para o futuro
A agência não fechou completamente a porta para uma revisão futura da decisão. Nos documentos aprovados, a Anatel prevê a criação de um ambiente regulatório experimental, um sandbox, para avaliar se Wi-Fi e sistemas móveis podem coexistir na mesma faixa com o auxílio de melhorias tecnológicas que reduzam a interferência mútua. Isso abre espaço para que, no futuro, com avanços em técnicas de coordenação de espectro e filtragem de sinal, a restrição possa ser revisada ou flexibilizada em casos específicos.
Por enquanto, a decisão é definitiva: a porção superior de 6 GHz será reservada para a expansão das redes celulares no país, em linha com o plano nacional de telecomunicações que prepara a infraestrutura para os próximos anos de conectividade no Brasil.
O que isso significa para o consumidor brasileiro
Para o usuário comum, o impacto imediato é pequeno. Roteadores Wi-Fi 6E e Wi-Fi 7 comprados hoje continuarão funcionando normalmente, e a diferença de desempenho decorrente da restrição de espectro só será percebida em ambientes muito congestionados, onde a faixa adicional de 6 GHz faz diferença real no dia a dia.
No entanto, para quem está planejando atualizar a rede doméstica ou corporativa e considera investir em um roteador de última geração, a informação é relevante. Um equipamento Wi-Fi 7 comprado no Brasil pode não operar com as mesmas capacidades de um idêntico comprado nos EUA, onde toda a faixa de 6 GHz está disponível. Antes de fazer o investimento, vale verificar as especificações do produto para o mercado brasileiro e confirmar se o fabricante já adaptou o firmware às novas regras da Anatel.
A longo prazo, a decisão pode ter implicações para o mercado de equipamentos de rede no Brasil. Fabricantes podem optar por não lançar versões Wi-Fi 7 otimizadas para o país, ou atrasar esses lançamentos enquanto ajustam os produtos. Por outro lado, a garantia de mais espectro para as operadoras celulares pode acelerar a qualidade e a cobertura do 5G nas cidades brasileiras, um benefício que, dependendo do perfil de uso de cada pessoa, pode superar a limitação no desempenho máximo do Wi-Fi doméstico.
Fonte original: Canaltech



