A nova geração do Apple Watch expõe uma contradição que acompanha os dispositivos vestíveis: quanto mais sensores e recursos são colocados em um relógio, mais difícil pode ser consertá-lo. A iFixit deu nota 4 de 10 para a reparabilidade do Apple Watch Series 12 e do Apple Watch Ultra 4, segundo uma nota publicada pelo The Verge em 7 de outubro de 2026. O Google Pixel Watch 5, citado na comparação, recebeu 9 de 10.
A pontuação não mede apenas a resistência do produto ou a facilidade de trocar uma pulseira. Ela tenta responder a uma pergunta prática: uma assistência técnica consegue abrir o relógio, substituir componentes e devolvê-lo ao usuário sem destruir outras partes no processo? No caso do Apple Watch, o resultado sugere que a miniaturização, a vedação contra água e a integração entre sensores continuam cobrando um preço alto quando chega a hora do reparo.
O que uma nota de reparabilidade revela
Relógios inteligentes são computadores pequenos presos ao pulso. Eles combinam tela, bateria, processador, sensores ópticos, eletrodos, microfones, alto-falantes e componentes de conectividade em um espaço muito menor do que o de um celular. Para manter o conjunto fino e resistente, fabricantes usam adesivos, cabos flexíveis e peças que ocupam funções sobrepostas.
Esse desenho pode melhorar a experiência durante o uso, mas complica a manutenção. Uma bateria envelhecida, por exemplo, não é apenas uma peça que se retira com facilidade. O acesso pode exigir aquecimento, ferramentas específicas e a remoção de uma tela frágil. Se o vidro quebra durante a abertura, o custo do reparo sobe rapidamente.
A iFixit também criticou a oferta de peças e ferramentas da Apple para os relógios. O The Verge relacionou esse problema às novas regras de direito ao reparo em dez estados norte-americanos. A reportagem não afirma que essas regras mudaram a assistência técnica no Brasil, mas o caso ajuda a entender por que legislação e projeto de produto estão cada vez mais conectados.
Por que sensores tornam o relógio mais difícil de consertar
O Apple Watch Series 12 foi apresentado como uma atualização de hardware com um conjunto de sensores redesenhado. A arquitetura precisa medir sinais do corpo com contato consistente, reduzir o consumo de energia e manter o funcionamento em atividades físicas. O relógio também depende de calibração para interpretar corretamente luz refletida na pele, sinais elétricos e movimento.
Trocar uma peça sem preservar essa relação entre sensor, software e corpo pode afetar a precisão das medições. Isso não significa que todo reparo seja impossível, mas significa que a assistência precisa de procedimentos que vão além de substituir uma tela ou uma bateria. Um componente instalado de forma incorreta pode comprometer vedação, leitura biométrica ou alertas de saúde.
Existe uma tensão real entre durabilidade e reparabilidade. Uma cola forte pode ajudar a evitar a entrada de água, mas torna a abertura mais trabalhosa. Uma bateria maior pode ampliar a autonomia, mas ocupar o espaço necessário para que uma assistência trabalhe com segurança. Um sensor integrado pode reduzir falhas de conexão, mas transformar uma pequena avaria em uma troca de módulo mais cara.
O que muda para o consumidor brasileiro
O Apple Watch é vendido no Brasil e muitos usuários dependem dele para notificações, atividade física e recursos relacionados à saúde. A nota da iFixit não altera automaticamente a garantia ou as regras de serviço oferecidas pela Apple no país. Ela funciona como um alerta para quem pretende comprar um relógio e planeja ficar com ele por vários anos.
Antes de escolher um modelo, vale verificar o preço de uma eventual troca de bateria, a rede autorizada disponível na sua região e o que acontece quando o relógio sofre uma queda fora da garantia. Também é importante perguntar se a assistência troca um componente específico ou substitui o aparelho inteiro. Essas duas soluções têm impactos diferentes no preço, no descarte de eletrônicos e na possibilidade de recuperar os dados e ajustes do usuário.
O consumidor deve observar ainda a vida útil do sistema operacional e o suporte a peças. Um relógio pode continuar funcionando, mas perder recursos se deixar de receber atualizações. Quando o reparo é caro e o suporte é curto, o ciclo de troca se torna mais rápido, mesmo que o hardware ainda esteja em boas condições.
Reparar também é uma questão de privacidade
Relógios inteligentes guardam mais do que passos. Eles podem registrar frequência cardíaca, sono, localização, exercícios e notificações. Quando um dispositivo é enviado para uma assistência, o usuário precisa saber como os dados são protegidos, se o aparelho será apagado e se a equipe terá acesso a uma conta conectada.
Um produto difícil de reparar tende a depender mais do fabricante ou de uma rede autorizada. Essa centralização pode oferecer treinamento e rastreabilidade, mas reduz as opções do consumidor. A disponibilidade de manuais, peças e ferramentas permite que oficinas independentes concorram e que o usuário escolha quem terá contato com o equipamento.
Para empresas que fornecem relógios a funcionários, escolas ou equipes esportivas, a questão é ainda mais concreta. A decisão de compra não deveria considerar somente preço e recursos. Também precisa incluir tempo de manutenção, disponibilidade de peças, descarte de baterias e segurança das informações coletadas pelo dispositivo.
O que seria um Apple Watch mais reparável
Um projeto mais reparável não precisaria abandonar a resistência à água nem reduzir a quantidade de sensores. Ele poderia facilitar a abertura sem danificar a tela, usar baterias substituíveis por uma assistência treinada, oferecer peças individuais e publicar instruções de calibração. Também seria importante permitir que o relógio reconhecesse um reparo legítimo sem bloquear funções essenciais.
A Apple poderia divulgar custos e prazos de manutenção com mais clareza, inclusive para consumidores brasileiros. A transparência ajudaria o público a comparar o preço de um reparo com o de um novo aparelho antes de tomar uma decisão. Para a indústria, indicadores como a nota da iFixit criam pressão para que a inovação seja avaliada junto com a vida útil.
Uma escolha que vai além do design
O Apple Watch Series 12 e o Ultra 4 mostram como o mercado de vestíveis está amadurecendo. Esses produtos já não são apenas acessórios para exibir notificações. Eles acompanham atividades, registram sinais do corpo e integram serviços importantes do celular. Quanto maior essa dependência, maior a necessidade de manutenção acessível e previsível.
A avaliação da iFixit não encerra a discussão sobre a qualidade dos relógios, mas muda o foco. Uma compra responsável precisa considerar não apenas o que o dispositivo faz no primeiro dia, mas também o que será possível fazer quando a bateria perder capacidade, a tela quebrar ou uma atualização deixar de chegar. Para o público brasileiro, a lição é simples: antes de investir em um vestível caro, pesquise o serviço local, os custos de reparo e o tratamento dado aos seus dados.
Fonte: The Verge, publicada em 7 de outubro de 2026.



