Há um crescente cansaço com a adoção compulsória de inteligência artificial nos aplicativos e dispositivos do cotidiano. E quem está na linha de frente para ajudar as pessoas a retomarem o controle de sua experiência digital não são especialistas em tecnologia ou influenciadores de YouTube: são bibliotecários. Nos Estados Unidos, workshops presenciais e online que ensinam como desativar recursos de IA, como o Apple Intelligence e o Google Gemini, tornaram-se virais, com listas de espera e engajamento sem precedentes nas redes sociais das bibliotecas.
A iniciativa que veio das bibliotecas
A ideia começou com Hannah Cyrus, uma bibliotecária do estado do Maine que publicou um artigo acadêmico descrevendo a estrutura de um workshop voltado a pessoas frustradas com a integração forçada de IA em seus dispositivos. O material chegou às mãos de Charlie Bailey, bibliotecária em South Philadelphia, que adaptou o formato e o trouxe para sua comunidade local.
O resultado foi uma resposta que nenhuma das duas esperava. O post do Instagram da biblioteca de South Philadelphia sobre o evento recebeu mais de 2.000 curtidas e 220 compartilhamentos, bem acima do engajamento habitual, em que publicações normalmente alcançam apenas dezenas de interações. A sessão inicial esgotou as vagas tão rapidamente que Bailey teve de programar um segundo encontro para atender à enorme demanda.
O workshop de Cyrus, no Maine, seguiu trajetória parecida. Cada uma de suas primeiras sessões atraiu cerca de 70 participantes, incluindo quem assistiu pela transmissão ao vivo, com as vagas presenciais limitadas a 30 pessoas e lista de espera formada rapidamente. O fenômeno se espalhou para outras bibliotecas ao redor do país, indicando que o sentimento de fadiga com a IA é amplamente compartilhado.
O que os workshops ensinam
As sessões duram em média uma hora e cobrem três frentes principais. A primeira é educacional: explicar de forma acessível como as ferramentas de IA funcionam, quais dados elas coletam e como esses dados são utilizados pelas empresas. Muitos participantes chegam sem entender exatamente o que acontece quando o Apple Intelligence resume seus e-mails ou quando o Google Gemini sugere respostas automáticas em suas buscas.
A segunda frente é prática: os workshops fornecem instruções passo a passo para desativar recursos de IA nas principais plataformas. Isso inclui como desligar o Apple Intelligence no iPhone, como remover o Google Gemini das sugestões automáticas do Android, como impedir que aplicativos usem dados pessoais para treinar modelos e como configurar navegadores para limitar o rastreamento de comportamento. O nível de detalhe é alto e acompanha as atualizações mais recentes de cada sistema operacional.
A terceira frente é conceitual: discutir o que significa ser um consumidor consciente de tecnologia, quais escolhas estão disponíveis e como exercer essas escolhas de forma concreta. Os organizadores evitam posições absolutas sobre IA, reconhecendo que a tecnologia tem usos legítimos e relevantes. O foco está na autonomia: garantir que as pessoas usem IA quando querem, e não porque não sabem como desligá-la.
Por que as pessoas estão participando
Os relatos dos participantes revelam um padrão claro. Não se trata de rejeição à tecnologia ou de postura ludista. A maioria usa smartphones, computadores e internet no dia a dia. O que os motiva a buscar esses workshops é uma combinação de frustração com a falta de controle, preocupações com privacidade e, em muitos casos, questões ambientais relacionadas ao consumo de energia de data centers.
Uma participante declarou não ser contra a IA em avanços médicos, mas querer decidir ela mesma quais ferramentas usa em seu dia a dia. Outra expressou preocupação com o consumo de energia dos data centers que alimentam os modelos, ligando a questão às mudanças climáticas. Um terceiro participante descreveu o incômodo de sentir que seus aplicativos estavam “pensando por ele” antes mesmo de ele ter uma chance de pensar sozinho.
Esses relatos apontam para algo mais profundo do que insatisfação com produtos específicos. Refletem uma crise de agência: a sensação de que a tecnologia está acontecendo com as pessoas, em vez de ser usada por elas. As empresas de tecnologia têm integrado recursos de IA cada vez mais de forma padrão, sem oferecer caminhos claros de desativação, e a resistência a esse modelo está crescendo de forma organizada.
Bibliotecas como espaços de letramento digital
O surgimento desses workshops em bibliotecas não é coincidência. As bibliotecas públicas americanas historicamente desempenharam papel central no letramento: primeiro com livros, depois com internet, e agora com tecnologia digital. São espaços de acesso democrático ao conhecimento, sem agenda comercial e com missão explícita de capacitar cidadãos.
O letramento digital sempre fez parte da agenda das bibliotecas, mas o momento atual é diferente. Enquanto antes o desafio era ensinar as pessoas a usar tecnologia, agora parte do desafio é ensinar a entender e a questionar a tecnologia que já está em seus bolsos. A popularidade dos workshops “Avoiding AI” mostra que há uma demanda real por esse tipo de orientação, e que as bibliotecas estão bem posicionadas para oferecê-la.
Os bibliotecários têm uma vantagem que influenciadores digitais não têm: são vistos como figuras de confiança, neutras em relação a interesses comerciais. Quando um bibliotecário ensina como desativar o Apple Intelligence, o participante não precisa se perguntar se há um patrocínio por trás da recomendação.
O movimento além das bibliotecas
A viralização dos workshops levou a pedidos de replicação em outros contextos. Grupos comunitários, organizações de terceira idade e até empresas têm entrado em contato com os organizadores originais pedindo materiais e orientações para conduzir sessões similares. Hannah Cyrus publicou sua estrutura de workshop em formato de artigo acadêmico justamente para facilitar essa replicação por outras instituições.
O fenômeno também gerou cobertura ampla na mídia americana, ampliando o alcance da mensagem. Pessoas que não podem comparecer a uma sessão presencial passaram a buscar guias online sobre como desativar recursos de IA, gerando tráfego significativo para tutoriais sobre privacidade digital e configurações de sistemas operacionais. O movimento, nascido em bibliotecas físicas, tem uma vida digital própria cada vez mais robusta.
O que as empresas de tecnologia estão fazendo
Apple e Google não comentaram diretamente os workshops. Mas as duas empresas têm publicado atualizações em suas páginas de suporte sobre como gerenciar recursos de IA, o que pode ser interpretado como resposta indireta à pressão dos usuários por mais controle sobre suas próprias configurações. A Apple, em particular, passou a oferecer opções mais granulares de configuração do Apple Intelligence nas versões mais recentes do iOS 26.
A questão central, porém, vai além do suporte técnico. Trata-se de decidir qual deve ser o padrão das configurações de IA. Quando recursos de IA vêm ativados por padrão e a desativação exige múltiplos passos em menus pouco intuitivos, o próprio design molda o comportamento do usuário. Os workshops “Avoiding AI” são, em parte, uma resposta direta a essa escolha de design que favorece o engajamento com IA em detrimento da autonomia do usuário.
Uma lição para desenvolvedores e criadores de produtos
Para quem constrói produtos digitais, o fenômeno dos workshops é um sinal de mercado relevante e crescente. Há uma parcela significativa de usuários que valoriza controle, transparência e escolha acima de conveniência automatizada. Produtos que oferecem configurações claras sobre o uso de IA, que explicam com honestidade o que coletam e para que usam os dados e que permitem desativar recursos sem burocracia tendem a gerar mais confiança e fidelidade a longo prazo.
A reação viral às sessões de bibliotecários não é um fenômeno de nicho passageiro. É um termômetro de como uma parte expressiva da população está se sentindo em relação à adoção compulsória de IA. Ignorar esse sinal pode custar a fidelidade de usuários que buscam alternativas. Levá-lo a sério pode ser um diferencial competitivo real em um mercado cada vez mais saturado de funcionalidades baseadas em inteligência artificial.
A reportagem original foi publicada pelo TechCrunch.



