Uma organização ambiental americana entrou com uma petição formal junto à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) pedindo a investigação e o cancelamento de licenças para projetos de data centers em órbita terrestre. O alvo são os planos liderados por Elon Musk, via SpaceX, e Jeff Bezos, via Amazon e Blue Origin, de levar infraestrutura de processamento de dados para o espaço. Para a Earth Justice, organização responsável pela petição, o projeto pode causar danos irreversíveis à atmosfera e ao meio ambiente global.
O que são data centers orbitais e por que as Big Techs os querem
Data centers são instalações físicas que abrigam os servidores responsáveis por armazenar, processar e distribuir dados de serviços digitais: plataformas de streaming, aplicativos, serviços de inteligência artificial, computação em nuvem e muito mais. No mundo todo, esses complexos consomem quantidades enormes de energia elétrica e água para resfriamento, o que os torna alvos frequentes de críticas ambientais e obstáculos para licenças de construção em áreas urbanas ou próximas de reservas naturais.
A ideia de levar data centers para o espaço surge como alternativa a essas restrições. No vácuo orbital, o resfriamento pode ser feito de maneira mais eficiente, sem necessidade de água. A energia poderia vir de painéis solares expostos continuamente à radiação solar, sem as limitações impostas pela atmosfera terrestre. Além disso, a localização orbital elimina as disputas locais por terrenos, licenças ambientais e oposição de comunidades vizinhas.
Segundo informações citadas na petição, os planos envolvem o lançamento de mais de um milhão de satélites ao longo da próxima década para fins de processamento de dados em órbita. Empresas como Google também estariam estudando viabilidade de instalações orbitais, segundo o documento apresentado ao FCC.
A petição da Earth Justice e os riscos ambientais apontados
O documento de 29 páginas entregue pela Earth Justice ao FCC pede que o órgão regulador investigue “urgentemente” os projetos e cancele as autorizações de voo e operação orbital já concedidas. A organização alerta que as consequências ambientais do projeto podem ser “irreversíveis e catastróficas para o planeta”.
Entre os riscos citados, o documento detalha que os lançamentos de foguetes necessários para colocar mais de um milhão de satélites em órbita injetariam “metais pesados, gases tóxicos e partículas de carbono diretamente na estratosfera”. O problema se agrava no processo de descomissionamento: quando os satélites atingem o fim da vida útil, entram em processo de reentrada atmosférica e se desintegram, queimando numa combinação de materiais que pode alterar a composição química da estratosfera.
O risco para a camada de ozônio
Um dos pontos mais preocupantes levantados na petição é o potencial impacto sobre a camada de ozônio, que protege a Terra da radiação ultravioleta do sol. A queima de grandes quantidades de materiais sintéticos e metálicos na reentrada dos satélites libera compostos que podem reagir quimicamente com as moléculas de ozônio, acelerando a sua degradação.
A organização também aponta riscos associados a colisões entre satélites, fenômeno que produz detritos orbitais – fragmentos de material que continuam em órbita e aumentam o risco de mais colisões, num ciclo conhecido como Síndrome de Kessler. A proliferação de detritos pode tornar certas faixas orbitais inutilizáveis por décadas e aumentar a quantidade de material que reentra na atmosfera de forma descontrolada.
A falta de transparência das empresas
A Earth Justice enfatiza em seu documento a “falta de transparência” demonstrada pelas empresas de tecnologia e aeroespaciais envolvidas nos projetos. Segundo a organização, nenhuma das companhias apresentou planos concretos para mitigar os danos ecológicos associados ao lançamento e à operação em massa de satélites para fins de processamento de dados.
O documento, que conta com 113 notas de rodapé e referências técnicas, foi elaborado como base para bloquear as autorizações de voo e de operação orbital concedidas pelo FCC, que é o órgão americano responsável por regular o uso do espectro eletromagnético e, por extensão, as comunicações via satélite.
O que está em jogo: pressão ambiental sobre a corrida espacial tecnológica
O debate sobre os impactos ambientais dos lançamentos espaciais não é novo, mas ganhou intensidade nos últimos anos com a multiplicação de projetos de constelações de satélites. A SpaceX, de Elon Musk, já tem mais de 6.000 satélites Starlink em órbita e planeja dezenas de milhares a mais. A Amazon, de Jeff Bezos, desenvolve o Projeto Kuiper, com planos de lançar mais de 3.000 satélites para oferecer internet banda larga via órbita baixa.
A proposta de usar esses satélites também como plataformas de processamento de dados, transformando-os em servidores orbitais, adiciona uma nova camada de complexidade ao debate. Enquanto a escala dos projetos de internet via satélite já preocupa astrônomos pelo problema de poluição luminosa e risco de colisão, a ideia de data centers orbitais eleva significativamente a quantidade de hardware que precisaria ser lançado e mantido em órbita.
O que os usuários de tecnologia devem saber
Para a maioria dos usuários de tecnologia, o impacto mais imediato é indireto: os data centers orbitais podem, no futuro, processar partes das cargas de trabalho de inteligência artificial, computação em nuvem e armazenamento de dados que hoje são executadas em instalações terrestres. Se a tendência avançar sem regulação adequada, os custos ambientais desse avanço podem ser significativos e de longo prazo.
O caso também ilustra a crescente tensão entre a velocidade da inovação tecnológica e a capacidade dos organismos regulatórios de avaliarem os impactos ambientais antes de conceder autorizações. A petição da Earth Justice ao FCC é um exemplo de como grupos ambientais estão cada vez mais atentos às implicações ecológicas da infraestrutura digital, um setor que costuma ser percebido como “limpo” apenas por não ter chaminés visíveis.
A matéria completa que originou esta reportagem foi publicada pelo Canaltech em 30 de julho de 2026.
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