A internet que usamos todos os dias depende de uma infraestrutura pouco visivel, mas fundamental: milhares de quilometros de cabos de fibra optica no fundo dos oceanos, conectando continentes e transmitindo uma parcela enorme de todo o trafego de dados do planeta. Essa rede submarina, construida ao longo de decadas por empresas e consorcio de paises, e o esqueleto invisivel da conectividade global. Mas uma startup fundada ha apenas alguns meses quer mudar isso radicalmente, trocando os cabos do fundo do mar por lasers no espaco.
A Endeavor Optical Networks, mais conhecida pela sigla EON, emergiu do sigilo em agosto de 2026 com US$ 10,75 milhoes em financiamento inicial liderado pela General Catalyst e pela Andreessen Horowitz. Seu plano e construir uma constelacao de satelites equipados com terminais de laser optico para conectar data centers ao redor do mundo a velocidades que fariam enrubescer a maioria das solucoes existentes.
Por que os cabos submarinos sao um problema
Os cabos de fibra optica submarinos sao, por natureza, uma infraestrutura dificil de acessar e ainda mais dificil de reparar. Quando um cabo se rompe, o que acontece com mais frequencia do que se imagina por causas como ancoras de navios, atividade sismica ou desgaste natural, os reparos exigem embarcacoes especializadas e semanas de trabalho. Em algumas regioes do mundo, a dependencia de poucos cabos cria vulnerabilidades criticas para a conectividade nacional.
Alem disso, a expansao das grandes empresas de cloud computing, os chamados hyperscalers, para novos mercados esta criando uma demanda crescente por rotas de dados que simplesmente nao existem ou sao insuficientes. Corredores como Africa-America do Sul ou Franca-Australia sao sistematicamente subatendidos pela infraestrutura atual, criando gargalos que limitam o acesso a servicos digitais e dificultam o crescimento economico nessas regioes.
A solucao: lasers no espaco
A proposta da EON e substituir esses cabos por uma rede de aproximadamente 20 satelites, cada um equipado com terminais de comunicacao optica a laser. A tecnologia de laser optico no espaco nao e nova em si, mas a EON pretende leva-la a uma escala e a um nivel de desempenho sem precedentes.
O objetivo inicial da empresa e atingir uma taxa de transmissao de 2,4 terabits por segundo. Para efeito de comparacao, as demonstracoes mais avancadas de laser espaco-terra registradas ate o momento chegam a cerca de 2,5 gigabits por segundo, uma fracao minuscula do que a EON pretende alcançar. Essa diferenca de escala, de gigabits para terabits, nao e incremental: e uma mudança de paradigma.
A longo prazo, a empresa projeta capacidade de transmissao de 800 gigabits a 1 terabit por satelite, com a rede completa potencialmente superando os 200 terabits por segundo que os hyperscalers precisam para mover dados entre continentes.
Quem esta por tras da EON
A fundacao tecnica da EON e solida. A empresa foi criada por Charlie Horowitz, ex-diretor de projetos especiais da Apex Space, que assume o cargo de CEO, e por Tyler Presser, engenheiro doutorando em astronautica com experiencia em planejamento de missoes na NASA, que sera o CTO da empresa.
Alem dos cofundadores, a equipe conta com Michael David Francois, executivo de infraestrutura de redes do Google, e Wesley Baxter, engenheiro de optica para redes de satelites em orbita baixa da Amazon. Essa combinacao de experiencias em empresas como NASA, Google e Amazon sugere uma equipe com conhecimento pratico dos desafios reais de infraestrutura de dados em escala global.
O principal desafio: a atmosfera
Transmitir dados via laser pelo espaco tem uma vantagem enorme em relacao aos cabos fisicos: velocidade de implantacao, flexibilidade de roteamento e ausencia de danos por ancora ou atividade sismica. Mas a tecnologia enfrenta um obstaculo que os cabos nao tem: a atmosfera terrestre.
Nuves, turbulencias atmosfericas e outros fenomenos meteorologicos podem distorcer ou bloquear os feixes de laser, criando interrupcoes na transmissao. A equipe da EON ja identificou esse como o principal desafio tecnico a ser resolvido, mas acredita que as solucoes existentes para mitigar a interferencia atmosferica sao suficientes para tornar o produto viavel comercialmente. O prototipo do primeiro satelite esta previsto para o final de 2027, o que ira testar essas hipoteses em condicoes reais.
A competicao: Blue Origin entra no mesmo campo
A EON nao esta sozinha nessa aposta. A Blue Origin, empresa aeroespacial fundada por Jeff Bezos, tambem esta desenvolvendo um projeto de comunicacao por laser espacial chamado TeraWave. A proposta da Blue Origin e mais ambiciosa em escala: uma constelacao de 5.048 satelites capaz de transmitir ate 6 terabits por segundo.
O contraste entre as duas abordagens e revelador. Enquanto a Blue Origin aposta em uma constelacao massiva com cronograma de implantacao mais longo, a EON propoe uma rede menor, de apenas 20 satelites, com o objetivo de chegar ao mercado mais rapido e com custos iniciais significativamente menores. A estrategia da EON se assemelha a de startups que preferem iteracao rapida e validacao de mercado a megaprojetos de longo prazo.
Quem vai usar isso, e quando
Os primeiros clientes-alvo da EON sao os proprios hyperscalers, empresas como Google, Microsoft, Amazon e Meta, alem de laboratorios de inteligencia artificial que precisam mover volumes enormes de dados entre data centers em diferentes continentes. Para essas empresas, a latencia e a capacidade de transmissao sao questoes criticas que afetam diretamente o desempenho de modelos de IA e servicos em cloud.
No contexto brasileiro, esse tipo de tecnologia poderia ter implicacoes significativas. O Brasil tem um acesso relativamente limitado a rotas de dados de alta capacidade em comparacao com a America do Norte e a Europa, o que impacta o custo e a qualidade de servicos de cloud para empresas e desenvolvedores locais. Uma rede de satelites com lasers de alta capacidade poderia mudar esse cenario ao criar rotas alternativas e mais baratas para conectar o Brasil ao restante do mundo digital.
A proxima fronteira da infraestrutura de internet
O sucesso da EON dependera de superar desafios tecnicos nao triviais, atrair parceiros comerciais de peso antes de lancar um unico satelite, e competir com players muito maiores como a Blue Origin e, potencialmente, a Starlink da SpaceX. Mas o que a empresa representa e maior do que seus desafios imediatos: e uma aposta de que a infraestrutura de internet do futuro nao sera feita de cabos enterrados no fundo do oceano, mas de lasers transmitindo dados a velocidades vertiginosas pelo vazio do espaco.
Para desenvolvedores, profissionais de cloud e qualquer pessoa que depende de conectividade de alta velocidade, esse e um campo que vale acompanhar de perto. O horizonte de 2027, quando o prototipo da EON deve ser lancado, ira revelar se a promessa dos lasers espaciais pode finalmente se tornar realidade comercial.
A materia completa sobre a EON esta disponivel no TechCrunch.



