Uma startup alemã pouco conhecida fora dos círculos científicos acaba de levantar um dos maiores rounds de investimento da história recente do setor de energia limpa: US$ 240 milhões em uma rodada Série A, elevando o total captado pela empresa para US$ 300 milhões em capital privado, além de US$ 200 milhões em subsídios governamentais. O nome da empresa é Focused Energy, e seu objetivo é construir reatores de fusão nuclear movidos a laser.
A notícia, reportada pelo TechCrunch, posiciona a Focused Energy como uma das apostas mais sérias do setor privado na chamada “corrida pela fusão”, um conjunto de iniciativas que busca replicar comercialmente o processo que alimenta o Sol para gerar energia praticamente ilimitada e sem emissões de carbono.
O que é fusão nuclear e por que ela importa
A fusão nuclear é o processo pelo qual dois núcleos atômicos leves, geralmente isótopos de hidrogênio como deutério e trítio, se fundem para formar um núcleo mais pesado, liberando uma quantidade enorme de energia. Ao contrário da fissão nuclear, que divide átomos pesados e gera resíduos radioativos de longa duração, a fusão produz hélio como subproduto principal, um material inerte e inofensivo.
Durante décadas, a fusão foi considerada uma promessa perpétua: sempre a 30 anos de distância. Essa percepção mudou em dezembro de 2022, quando o National Ignition Facility (NIF), laboratório do governo americano em Livermore, Califórnia, realizou o primeiro experimento controlado de fusão a gerar mais energia do que consumiu. O feito, tecnicamente denominado “ignição”, abriu uma nova era de otimismo para o setor.
A abordagem da Focused Energy
A Focused Energy adota uma técnica conhecida como confinamento por inércia a laser, ou “direct drive”. Nessa abordagem, lasers de alta potência são disparados diretamente sobre uma pequena cápsula de combustível de fusão, comprimindo-a até que a fusão ocorra. Essa técnica difere do método utilizado pelo NIF, que usava um cilindro de ouro chamado “hohlraum” para converter energia dos lasers em raios-X antes de atingir o combustível.
A eliminação do hohlraum é considerada uma vantagem pela empresa, pois simplifica o processo e, em teoria, melhora a eficiência energética do sistema. A startup afirma que sua abordagem é mais direta e mais escalável do que os métodos convencionais utilizados em laboratórios governamentais.
Debbie Callahan, que participou do design dos alvos de combustível no NIF e ajudou a tornar possível o experimento de ignição de 2022, hoje atua como estrategista-chefe da Focused Energy. Sua presença na empresa é um indicativo de que a startup tem acesso a conhecimento de ponta sobre o processo de fusão, não apenas capital.
Quem investiu e por quê
A rodada foi liderada pela RWE, uma das maiores concessionárias de energia da Europa, que também disponibilizará um sítio desativado na Alemanha para a construção do primeiro sistema de demonstração da Focused Energy, chamado “Lighthouse”. A presença de uma concessionária estabelecida como investidora e parceira de infraestrutura é um sinal de confiança do setor tradicional de energia na viabilidade da tecnologia.
Outros investidores incluem a Prime Movers Lab, fundo americano especializado em tecnologias de impacto, e o European Innovation Council Fund, braço de investimento da União Europeia focado em inovações de ruptura. A SPRIND, agência federal alemã de inovação radical, também contribuiu com recursos governamentais para o projeto.
O volume total de recursos levantados, US$ 300 milhões em capital privado mais US$ 200 milhões públicos, coloca a Focused Energy entre as startups de fusão mais bem capitalizadas do mundo, ao lado de nomes como Commonwealth Fusion Systems e TAE Technologies.
O projeto Lighthouse e seus desafios
O projeto Lighthouse é o primeiro sistema de demonstração planejado pela empresa. Será construído em um sítio industrial desativado na Alemanha, operado pela RWE, e tem como objetivo comprovar que o processo de fusão a laser pode ser realizado de forma contínua e com geração líquida de energia.
O desafio técnico principal é o que a empresa chama de “frequência de repetição”. Enquanto o NIF consegue realizar cerca de 400 disparos de laser por ano, equivalente a aproximadamente um por dia, a Focused Energy precisará de 10 disparos por segundo para que a tecnologia seja comercialmente viável como fonte de energia. Esse é um salto de mais de 3 milhões de vezes na taxa de repetição.
Nenhuma instalação de fusão no mundo chegou perto desse ritmo até agora. Para atingi-lo, a empresa precisará desenvolver lasers de muito maior eficiência e durabilidade, além de sistemas de controle e resfriamento capazes de operar continuamente. É por isso que a etapa atual, o projeto Lighthouse, é chamada de “demonstração”: o objetivo é validar os componentes tecnológicos, não ainda gerar energia comercial.
O contexto da corrida pela fusão
A Focused Energy não está sozinha nessa corrida. O setor de fusão nuclear privada tem atraído bilhões de dólares em investimentos nos últimos anos, impulsionado pela urgência climática e pela percepção de que as fontes renováveis convencionais, como solar e eólica, têm limitações geográficas e de armazenamento que a fusão poderia superar.
Nos Estados Unidos, a Commonwealth Fusion Systems desenvolve um reator de confinamento magnético chamado SPARC, enquanto a TAE Technologies aposta em uma abordagem diferente, baseada em plasma de boro. Na Europa, além da Focused Energy, a empresa britânica Tokamak Energy avança com seu design ST80-HTS.
A diferença da abordagem a laser em relação ao confinamento magnético, o método mais tradicional de fusão, está principalmente no tamanho e na escalabilidade. Reatores a laser tendem a ser menores e potencialmente mais baratos, mas exigem uma taxa de repetição muito alta para compensar a energia consumida pelos próprios lasers.
O impacto potencial para a matriz energética global
Se a Focused Energy conseguir superar os desafios técnicos que separam o laboratório da geração comercial, as implicações para o setor energético global seriam profundas. A fusão nuclear, ao contrário do petróleo, do gás e mesmo do urânio para fissão, usa combustíveis amplamente disponíveis: deutério pode ser extraído da água do mar, e trítio pode ser produzido a partir do lítio.
A geração de energia por fusão não produz gases de efeito estufa, não gera resíduos radioativos de longa duração e não apresenta risco de explosão nuclear. Em teoria, uma usina de fusão teria a densidade energética muito superior à das fontes renováveis atuais, tornando-a adequada para regiões sem sol ou vento suficientes.
O investimento de US$ 240 milhões na Focused Energy é, portanto, mais do que uma aposta em uma empresa. É uma aposta em que a fusão nuclear deixará de ser ficção científica e se tornará realidade industrial dentro de uma ou duas décadas. Se a empresa cumprir sua promessa, o projeto Lighthouse pode ser lembrado como o ponto de partida de uma das maiores transformações energéticas da história humana.



