O mercado de carteiras de hardware para criptomoedas sempre vendeu a ideia de que manter seus ativos offline, longe da internet, era a proteção máxima contra hackers. A Coldcard, uma das marcas mais respeitadas do setor, era frequentemente citada como exemplo de segurança “air-gapped”, ou seja, completamente isolada de qualquer rede. Em agosto de 2026, esse mito foi demolido de forma custosa: mais de US$ 130 milhões foram roubados de usuários que seguiram todas as recomendações de segurança.
O ataque, revelado em 4 de agosto de 2026 pelo TechCrunch com base em pesquisa da empresa de segurança Block, explorou uma falha crítica no firmware da Coldcard que passou despercebida por anos. O resultado foi um dos maiores roubos de criptomoedas por vulnerabilidade de hardware já documentados, e levantou questões fundamentais sobre a segurança do cold storage.
A falha que passou anos despercebida
A vulnerabilidade estava em uma linha de código inserida no firmware da Coldcard em 2021. O problema estava na forma como as carteiras geravam as chamadas seed phrases, as sequências de 12 a 24 palavras que funcionam como a chave mestra de uma carteira de criptomoedas. Quem tem acesso à seed phrase tem acesso a todos os fundos associados àquela carteira.
Segundo os pesquisadores da Block, o algoritmo de geração das seed phrases nas carteiras Coldcard, especialmente no modelo MK3, produzia sequências previsíveis. Em vez de gerar valores verdadeiramente aleatórios, o firmware usava um processo que, uma vez identificado por pesquisadores ou por atores maliciosos, permitia calcular matematicamente qual seria a seed phrase de um determinado dispositivo.
A Coinkite, fabricante da Coldcard, publicou avisos de segurança em 5 e 7 de agosto recomendando que todos os usuários dos modelos afetados atualizassem o firmware e migrassem seus fundos para uma nova seed phrase gerada no hardware atualizado. Mas o aviso veio tarde demais para muitos.
Como o ataque funcionou na prática
Uma vez identificado o padrão de previsibilidade na geração das seed phrases, os atacantes desenvolveram uma técnica de força bruta altamente eficiente. Em vez de tentar adivinhar seed phrases aleatoriamente, o que levaria tempo computacionalmente inviável, eles usaram o conhecimento sobre o algoritmo falho para gerar as seed phrases corretas em escala industrial.
Os pesquisadores da Block descreveram o método de forma precisa: os hackers essencialmente aprenderam a “copiar chaves em escala”. Conhecendo a falha no gerador de números aleatórios do firmware, era possível reconstruir a seed phrase de qualquer carteira afetada sem nunca ter tido acesso físico ao dispositivo.
O que tornava o ataque particularmente perverso era que as vítimas não cometeram nenhum erro. Elas compraram hardware de segurança legítimo, geraram sua seed phrase corretamente, nunca a compartilharam com ninguém e nunca conectaram suas carteiras à internet. Mesmo assim, seus fundos foram roubados.
Jonathan Goodman, uma das vítimas identificadas, perdeu US$ 1,6 milhão e declarou: “Nunca compartilhei minha seed phrase com ninguém. Meus dispositivos nunca tocaram a internet.” Sua declaração ilustra perfeitamente o drama das vítimas: a falha não estava em seu comportamento, mas no próprio produto que compraram para se proteger.
Os prejuízos confirmados
O total de fundos roubados ultrapassa US$ 130 milhões, conforme dados da Galaxy Research e confirmados pelo cofundador da empresa de análise de blockchain Elliptic, Tom Robinson. Ao menos uma dúzia de grupos diferentes de hackers explorou a vulnerabilidade, o que sugere que o conhecimento sobre a falha circulou em comunidades de cibercrime antes de se tornar público.
A pluralidade de grupos envolvidos também indica que a vulnerabilidade pode ter sido descoberta independentemente por múltiplos pesquisadores ou atores maliciosos, ou que o conhecimento foi comprado e revendido em mercados clandestinos. O tempo entre a introdução do bug no firmware (2021) e o momento em que os ataques se tornaram conhecidos sugere que a exploração pode ter ocorrido de forma discreta por meses ou anos.
Carteiras de hardware: repensando a segurança do cold storage
O incidente com a Coldcard desafia uma premissa central do mercado de carteiras de hardware: a de que o simples fato de manter criptomoedas offline as protege contra qualquer tipo de ataque remoto. Essa premissa não considerava a possibilidade de que o próprio processo de geração das chaves pudesse ser comprometido.
As carteiras de hardware funcionam gerando um par de chaves criptográficas: uma pública, que funciona como o “endereço” para receber fundos, e uma privada, derivada da seed phrase, que autoriza transações. A segurança do sistema depende inteiramente da aleatoriedade na geração dessas chaves. Se essa aleatoriedade for comprometida, toda a cadeia de segurança desmorona.
Historicamente, ataques a carteiras de hardware exigiam acesso físico ao dispositivo. Este incidente demonstra que vulnerabilidades no firmware podem criar vetores de ataque puramente matemáticos, sem qualquer necessidade de acesso físico, conexão à internet ou erro do usuário.
O que fazer se você usa uma Coldcard
Se você possui uma carteira Coldcard, especialmente o modelo MK3, as ações recomendadas pela Coinkite são urgentes:
- Atualize o firmware imediatamente para a versão mais recente disponível no site oficial da Coinkite.
- Gere uma nova seed phrase com o firmware atualizado e transfira todos os seus fundos para o novo endereço gerado.
- Não use a seed phrase antiga para nenhuma transação nova, pois os endereços derivados dela ainda são vulneráveis.
- Verifique o histórico de transações dos seus endereços para identificar se houve movimentações não autorizadas.
Lições para o ecossistema de criptomoedas
O ataque à Coldcard levanta questões importantes sobre como o ecossistema de criptomoedas testa e audita o software dos dispositivos de segurança. A vulnerabilidade estava no firmware desde 2021, mas não há registros de que ela tenha sido identificada por auditorias independentes de segurança durante esses anos.
O mercado de carteiras de hardware é relativamente pequeno, o que significa que as empresas do setor têm recursos limitados para programas de bug bounty ou auditorias externas contínuas. A Coinkite, apesar de ser uma das marcas mais reconhecidas no espaço, não está imune às limitações de qualquer empresa de software.
Para os usuários, o episódio reforça uma lição fundamental: nenhuma solução de segurança é absoluta. Diversificar o armazenamento de grandes quantias entre múltiplas carteiras de fabricantes diferentes, realizar auditorias periódicas de firmware e manter-se atualizado sobre alertas de segurança do fabricante são práticas que deveriam ser padrão para qualquer pessoa que mantém ativos significativos em criptomoedas.
O mercado brasileiro de criptomoedas, que conta com milhões de investidores ativos, deve tomar nota do ocorrido. Muitos usuários no Brasil optam por carteiras de hardware exatamente para escapar dos riscos das exchanges, mas o incidente com a Coldcard demonstra que a segurança do hardware em si também precisa ser constantemente questionada e verificada.
Para quem ainda usa seed phrases que podem ter sido geradas com o firmware vulnerável, a mensagem é simples: migre seus fundos agora, antes que seja tarde.
Fonte: TechCrunch – Hackers steal over $130M by exploiting bug in offline hardware wallets



