Nos últimos anos, a fusão nuclear passou de piada interna da física para uma das apostas tecnológicas mais sérias do setor de energia. O que antes era uma promessa distante – “energia da fusão está sempre a 30 anos de distância”, como dizia o ditado – começa a ganhar contornos concretos graças a três avanços simultâneos: chips mais potentes, inteligência artificial sofisticada e ímãs supercondutores de alta temperatura.
Em dezembro de 2022, o laboratório do Departamento de Energia dos Estados Unidos cruzou um limiar histórico: pela primeira vez, um experimento de fusão nuclear produziu mais energia do que os lasers utilizados para iniciar a reação. O chamado “breakeven científico” validou a teoria e abriu caminho para que dezenas de startups acelerassem seus cronogramas.
Hoje, essas empresas captaram coletivamente US$ 7,1 bilhões em capital privado – mas o mais importante não é o dinheiro em si. É o que cada uma está construindo, e como a IA está no centro de praticamente todos esses projetos.
Como a IA e os chips estão mudando a fusão nuclear
Projetar um reator de fusão é um dos problemas de engenharia mais complexos já enfrentados pela humanidade. O plasma que alimenta a reação precisa ser mantido em temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius – dez vezes mais quente que o interior do Sol – enquanto é contido por campos magnéticos de precisão milimétrica.
Por décadas, isso significava simulações que levavam semanas para rodar em supercomputadores. Hoje, os novos chips de IA permitem que pesquisadores testem centenas de configurações em horas. A IA também é usada para controlar os campos magnéticos em tempo real, ajustando continuamente o plasma para evitar instabilidades que poderiam destruir o reator.
As principais abordagens tecnológicas
Tokamak: a tecnologia mais madura
O tokamak é o design de reator de fusão mais estudado e construído. Usa um campo magnético toroidal (em formato de rosca) para confinar o plasma. A Commonwealth Fusion Systems (CFS), sediada em Massachusetts, é a empresa que mais avançou nessa direção. Seu reator SPARC, que usa ímãs de alta temperatura supercondutores, deve atingir o breakeven científico em 2027. O próximo passo é o Arc, uma usina comercial de 400 megawatts perto de Richmond, Virginia, com o Google comprometido a comprar metade da produção.
A Helion, no estado de Washington, usa uma variação chamada “field-reversed configuration” e tem um acordo com a Microsoft para gerar eletricidade até 2028. Já a Tokamak Energy, do Reino Unido, aposta em um tokamak esférico compacto.
Stellarator: mais estável, mas mais complexo
O stellarator tem uma geometria mais complexa que o tokamak, mas oferece uma vantagem crucial: opera de forma contínua, sem os pulsos de plasma que o tokamak requer. A Proxima Fusion está desenvolvendo um stellarator com ímãs inspirados em “pixels” que podem ser reconfigurados. A empresa espera completar seu demonstrador Alpha no início da década de 2030. A Type One Energy, por sua vez, trabalha em um modelo de 350 megawatts com foco em licenciamento de tecnologia.
Confinamento inercial por laser
Em vez de campos magnéticos, o confinamento inercial usa lasers ou feixes de energia para comprimir o combustível de hidrogênio até que a fusão ocorra. Foi essa abordagem que o laboratório do Departamento de Energia usou para o experimento de 2022.
A Inertial Enterprises saiu do modo stealth em fevereiro com US$ 450 milhões de Series A, liderada por Annie Kritcher – cientista que trabalhou no experimento original do NIF. A Focused Energy, com sede na Alemanha, busca o mesmo caminho. Já a Xcimer ativou o Phoenix em junho de 2026: descrito como “o laser privado mais poderoso do mundo”, com 10 megajoules de energia.
A Marvel Fusion, também alemã, tem uma abordagem única: usa nanoestruturas de silício para criar alvos de fusão que prometem maior eficiência. Espera uma demonstração operacional até 2027.
Z-pinch e outras abordagens alternativas
A Zap Energy usa uma corrente elétrica para gerar os campos magnéticos de confinamento do plasma, dispensando os complexos ímãs dos tokamaks. A empresa recentemente passou a explorar também a fissão nuclear como forma de diversificar suas fontes de receita enquanto desenvolve a fusão.
A Pacific Fusion capta pulsos eletromagnéticos coordenados para o confinamento inercial – uma abordagem que dispensou lasers e que atraiu mais de US$ 1 bilhão em sua Series A, um recorde para o setor.
O que isso significa para o futuro da energia
A fusão nuclear tem características únicas que a tornam atraente do ponto de vista energético: usa deutério (extraído da água do mar) e trítio como combustível, não produz CO2, os resíduos radioativos são de meia-vida curta e não há risco de reação em cadeia descontrolada como na fissão. Em teoria, um reator de fusão comercial poderia fornecer energia praticamente inesgotável para o planeta.
O Google já comprometeu compra de energia do reator Arc da CFS. A Microsoft tem acordo com a Helion. Esses contratos antecipados mostram que a indústria de tecnologia – que precisa de cada vez mais energia para alimentar data centers de IA – está apostando seriamente no potencial da fusão para atender essa demanda.
Os cronogramas ainda são ambiciosos e cheios de incertezas técnicas e regulatórias. Mas pela primeira vez em décadas, a promessa de energia de fusão comercial parece estar caminhando de “sempre a 30 anos” para “possivelmente nesta década”.
A matéria original foi publicada pelo TechCrunch em 15 de agosto de 2026.



