Uma VPN costuma ser apresentada como um interruptor simples: ligar para proteger a conexão e desligar quando a internet ficar lenta. O split tunneling oferece uma terceira opção. Com ele, apenas parte do tráfego passa pelo túnel criptografado, enquanto aplicativos ou sites escolhidos usam a conexão normal. A função parece técnica, mas resolve problemas cotidianos de quem joga online, trabalha em casa, acessa dispositivos locais ou precisa combinar privacidade com velocidade.
O recurso ganhou destaque em um guia publicado pela Wired em 23 de outubro de 2026. A ideia principal é que uma VPN oferece proteção com alguns compromissos. O tráfego pode ficar mais lento, serviços podem enxergar uma localização diferente e aparelhos da rede doméstica podem deixar de ser acessíveis. O split tunneling permite escolher onde a proteção é mais importante e onde a conexão direta é mais conveniente.
Como o split tunneling funciona
Sem a função, um aplicativo de VPN geralmente encaminha todo o tráfego do computador ou celular pelo servidor escolhido. Isso cria uma rota protegida entre o dispositivo e a internet, mas também faz com que atividades que não precisam de privacidade passem pelo mesmo caminho. Com o split tunneling, o usuário cria uma lista de exceções ou de aplicativos protegidos. Um navegador pode usar a VPN, enquanto um jogo, uma impressora de rede ou um serviço de streaming usa a conexão local.
Existem duas formas comuns de implementar a seleção. Na primeira, o usuário escolhe os aplicativos que devem passar pela VPN. Na segunda, escolhe os aplicativos que devem ficar fora dela. O nome e a posição do controle variam entre os serviços. Em alguns casos, a função é configurada por aplicativo; em outros, permite definir destinos ou endereços de rede. A diferença é importante porque uma regra ampla pode proteger menos do que a pessoa imagina.
Quando a função é útil
Jogos online são um exemplo fácil. A conexão direta pode reduzir latência, que é o tempo de ida e volta entre o dispositivo e o servidor. Se a VPN estiver criando uma rota muito longa, o jogo pode ficar mais lento ou instável. O usuário pode manter o navegador e aplicativos de trabalho protegidos pela VPN e deixar o jogo fora do túnel. Isso não torna o jogo anônimo nem impede que o serviço registre sua atividade, mas evita aplicar a mesma rota a tarefas com necessidades diferentes.
A função também ajuda quem trabalha com serviços internos. Uma empresa pode exigir VPN para acessar sistemas corporativos, mas o funcionário ainda precisa imprimir em uma impressora doméstica, controlar um alto-falante inteligente ou acessar um servidor local. Quando todo o tráfego passa pelo túnel, a rede local pode ficar invisível ou inacessível. Uma exceção bem configurada permite que o serviço corporativo continue protegido sem quebrar os dispositivos da casa.
Outro caso envolve sites que dependem de localização. A VPN pode fazer um serviço entender que o usuário está em outro país. Isso é desejável quando a finalidade é privacidade ou acesso remoto, mas pode atrapalhar mapas, lojas locais, aplicativos de transporte e páginas que mostram preços regionais. Excluir apenas esses aplicativos preserva a conexão direta onde a localização real é parte da experiência.
O que fica fora da proteção
O split tunneling não é uma forma de tornar toda a conexão segura. O tráfego que passa fora da VPN continua sujeito à rede normal, ao provedor de internet e aos mecanismos de rastreamento do próprio aplicativo. Em uma rede Wi-Fi pública, deixar um navegador fora do túnel pode reduzir a proteção justamente onde ela seria mais necessária. A regra deve ser escolhida pelo risco da atividade, não apenas pela velocidade.
Também é preciso lembrar que a VPN não substitui HTTPS, autenticação multifator, atualizações ou cuidado com links. Ela protege a rota entre pontos definidos, mas não impede que um site malicioso capture uma senha digitada nele. Do mesmo modo, não evita que um aplicativo autorizado colete dados dentro da própria sessão. O recurso resolve um problema de roteamento e privacidade, não todos os problemas de segurança.
Como configurar com segurança
Comece com uma lista pequena de aplicativos. Escolha aqueles que precisam de privacidade, como navegador de trabalho, cliente de e-mail ou ferramenta de acesso remoto. Depois teste o que ficou fora da VPN. Verifique se o endereço IP percebido, o acesso à impressora e a conexão com outros dispositivos continuam funcionando como esperado. Se o serviço oferecer um modo de bloqueio quando a VPN cair, confira se ele se aplica a todo o aparelho ou apenas aos aplicativos protegidos.
Faça o teste em redes diferentes. Uma regra que funciona no Wi-Fi de casa pode se comportar de outra maneira em uma rede corporativa ou no 5G. Aplicativos que mudam de processo, usam múltiplos domínios ou dependem de serviços auxiliares também podem escapar da regra. Manter o aplicativo da VPN atualizado ajuda porque os fornecedores corrigem incompatibilidades e ampliam o suporte aos sistemas operacionais.
O equilíbrio entre privacidade e desempenho
A melhor configuração depende do objetivo. Quem prioriza privacidade em uma rede pública deve manter quase tudo dentro da VPN. Quem precisa apenas acessar um sistema corporativo pode proteger somente esse fluxo. Quem joga e usa dispositivos locais pode deixar tarefas de baixa sensibilidade fora do túnel. Não existe uma divisão universal que seja correta para todas as pessoas.
Para usuários brasileiros, o split tunneling é especialmente útil em casas com vários serviços digitais ao mesmo tempo. Uma mesma conexão pode carregar videochamadas, jogos, impressoras, sistemas de trabalho e dispositivos inteligentes. Colocar tudo em uma única rota protegida pode gerar lentidão e incompatibilidade. Separar os fluxos torna a VPN mais previsível, desde que o usuário saiba exatamente quais atividades perderão a proteção.
O ponto mais importante é tratar a função como uma política de tráfego. Antes de ativar, defina quais dados precisam de privacidade, quais aplicativos precisam de velocidade e quais dispositivos precisam permanecer visíveis na rede local. Depois revise a lista. Uma VPN bem configurada não é necessariamente aquela que intercepta tudo, mas aquela que deixa claro o que está protegido, o que está fora e por que essa escolha foi feita.



