Se você estava planejando montar ou atualizar um computador nos próximos meses, prepare-se para notícias difíceis: os maiores fabricantes de memória RAM do mundo, Samsung, SK Hynix e Micron, esgotaram praticamente toda a capacidade de produção para 2027. Segundo fontes da DigiTimes citadas pelo Canaltech, não há mais espaço na fila para novos compradores sem contratos já estabelecidos. O impacto já se faz sentir nos preços e, segundo analistas, vai piorar antes de melhorar.
O motivo central dessa escassez é a explosão da demanda por inteligência artificial. Hoje, aproximadamente 70% de toda a produção global de memória DRAM está alocada para servidores de IA e para a chamada High Bandwidth Memory (HBM), um tipo especializado de RAM usada em chips de IA como os da Nvidia. Sobra apenas 30% da produção para suprir o mercado consumidor, que inclui smartphones, notebooks e desktops.
O que é HBM e por que a IA consome tanta memória?
High Bandwidth Memory (HBM) é um tipo de memória de alto desempenho desenvolvida especificamente para processadores gráficos e chips de inteligência artificial. Diferente da RAM comum (DDR4 ou DDR5), o HBM é empilhado verticalmente sobre o chip e oferece uma largura de banda muito maior. É exatamente esse tipo de memória que alimenta as GPUs da Nvidia usadas em treinamento e inferência de modelos de IA como o ChatGPT, o Gemini e outros sistemas generativos.
Com a corrida global por capacidade de IA, empresas de tecnologia, provedores de nuvem e governos estão comprando chips de IA e, por consequência, HBM em volumes sem precedente. Isso cria um efeito cascata: as fábricas que antes dividiam sua produção entre HBM e RAM convencional estão migrando sua capacidade para o segmento mais lucrativo, deixando o mercado consumidor em segundo plano.
Preços já subiram mais de 400% e devem continuar subindo
Os números são alarmantes para quem precisa comprar memória. Um kit básico de 32 GB DDR5 custava aproximadamente US$ 80 em 2025. Em 2026, o mesmo produto está sendo vendido por volta de US$ 439, uma alta de mais de 400% em menos de um ano. E não há sinal de alívio no horizonte próximo.
Analistas do setor projetam que os preços devem subir mais 40% a 50% apenas no terceiro trimestre de 2026, com novas altas de 30% a 40% esperadas para o final do ano. No cômputo geral, a memória RAM já representa até 35% do custo total dos componentes de um PC, uma proporção que seria impensável há poucos anos.
O mercado spot, aquele onde se compra memória em pequenas quantidades sem contratos de longo prazo, praticamente colapsou. Empresas sem contratos pré-estabelecidos com os fabricantes enfrentam dificuldades sérias para conseguir memória a qualquer preço. Os grandes fabricantes passaram a exigir acordos de longo prazo (LTAs, ou Long-Term Agreements), que duram de 3 a 5 anos e exigem pagamentos antecipados, algo mais comum em mercados de commodities industriais do que em eletrônicos de consumo.
Por que a Samsung, a SK Hynix e a Micron esgotaram a produção?
Essas três empresas controlam juntas mais de 90% do mercado global de DRAM. A Samsung lidera com cerca de 43% do mercado, seguida pela SK Hynix com aproximadamente 28% e pela americana Micron com perto de 23%. Quando as três esgotam sua capacidade ao mesmo tempo, não existe outra fonte relevante para absorver a demanda excedente.
O que aconteceu é que os acordos de longo prazo firmados com grandes compradores, como Microsoft, Amazon Web Services, Google Cloud e Meta, consumiram toda a capacidade disponível. Esses clientes, todos fortemente investidos em infraestrutura de IA, garantiram suprimento com um ou dois anos de antecedência, deixando o restante do mercado sem opções.
Quando os preços vão cair?
A perspectiva de alívio mais concreta está em 2028. A Samsung está construindo novas instalações de fabricação no Texas, nos Estados Unidos, que devem entrar em operação nesse horizonte. Quando essas fábricas estiverem operacionais, a capacidade de produção total deve aumentar significativamente, o que pode ajudar a reequilibrar a oferta entre o mercado de IA e o consumidor.
Antes disso, a tendência é de alta contínua. Quem precisar de RAM nos próximos 12 a 18 meses deve esperar pagar muito mais do que pagava em 2024 ou 2025. A exceção são as faixas de entrada, com módulos de 8 GB e 16 GB, que ainda têm alguma disponibilidade, mas também registram altas expressivas.
O que fazer diante desse cenário?
Para o usuário comum, a principal recomendação dos especialistas é clara: se você precisar de RAM, compre agora. A tendência de alta nos preços está consolidada e, salvo um choque de demanda inesperado, não há perspectiva de queda antes de 2028.
Para quem está montando um PC novo, pode ser interessante priorizar uma plataforma que suporte expansão futura, comprando o mínimo necessário agora e planejando expansão quando o mercado se normalizar. Em notebooks, a situação é mais complexa, pois a maioria dos modelos modernos tem RAM soldada à placa, sem possibilidade de atualização posterior.
Para profissionais que trabalham com edição de vídeo, design, programação ou qualquer tarefa que exige volumes maiores de memória, a recomendação é comprar o que precisar o quanto antes, já que os preços só devem subir.
Um reflexo do novo mundo dominado pela IA
A crise da RAM é um reflexo do impacto que a corrida pela inteligência artificial está tendo em toda a cadeia de suprimentos de hardware. O que antes parecia um recurso abundante e barato agora é um bem escasso, disputado por data centers gigantes e pelos consumidores comuns ao mesmo tempo.
Esse cenário é particularmente relevante para o mercado brasileiro, onde os preços de componentes de hardware já sofrem com impostos de importação elevados. Uma alta de mais de 400% na origem pode representar valores ainda mais expressivos nas prateleiras de lojas brasileiras. Quem já comprou memória em 2023 ou 2024, quando os preços estavam baixos, fez um bom negócio sem saber.
Fonte: Canaltech – Crédito da imagem: Reprodução/SK Hynix



