Dois nomes conhecidos no setor de tecnologia de transporte se uniram para construir a infraestrutura que pode tornar o táxi aéreo uma realidade nos Estados Unidos. A Joby Aviation, empresa especializada em veículos elétricos de decolagem e pouso vertical (eVTOL), firmou uma parceria estratégica com a Atoms, startup de robótica e automação industrial fundada por Travis Kalanick, o cofundador da Uber. O objetivo da aliança é desenvolver e financiar uma rede de vertiports em quatro estados americanos: Flórida, Nova York, Texas e Califórnia.
A parceria foi destaque na cobertura semanal de mobilidade autônoma do TechCrunch, que acompanha os desdobramentos do setor. O anúncio chega em um momento em que a Joby se aproxima do lançamento comercial de seus serviços de táxi aéreo, com resultados financeiros do segundo trimestre de 2026 mostrando crescimento expressivo e redução nos prejuízos.
O que são vertiports e por que são essenciais
Os vertiports são a infraestrutura terrestre dos táxis aéreos: locais com área de pouso e decolagem, estações de recarga elétrica, espaços de espera para passageiros e sistemas de gerenciamento de tráfego aéreo. Assim como um aeroporto é indispensável para a aviação comercial, os vertiports são a espinha dorsal logística para que os eVTOLs possam operar em escala urbana.
Até agora, a construção de vertiports tem sido um dos maiores obstáculos para a expansão do setor. Além das questões regulatórias, que envolvem aprovações de autoridades de aviação civil e prefeituras, há o desafio do investimento inicial. Construir estações funcionais em cidades densas como Nova York ou Los Angeles exige capital, expertise imobiliária e capacidade de navegar regulamentações extremamente complexas.
É nesse ponto que a Atoms entra na equação. A startup de Travis Kalanick, que já captou mais de US$ 1,7 bilhão em investimentos liderados pela Andreessen Horowitz, tem como proposta combinar inteligência artificial, automação industrial e infraestrutura física. No contexto da parceria com a Joby, a Atoms atuaria na identificação, aquisição e desenvolvimento dos espaços físicos onde os vertiports serão instalados.
Travis Kalanick volta à mobilidade urbana
A parceria é também um capítulo significativo na trajetória de Travis Kalanick, que saiu da Uber em 2017 em meio a uma série de controvérsias internas. Com a Atoms, fundada em março de 2026, Kalanick retorna ao tema que o tornou bilionário: a reinvenção do transporte urbano. Desta vez, o foco está na camada física, robótica, automação de fábricas e, agora, infraestrutura para táxis aéreos.
A parceria com a Joby foi bem recebida pelo mercado. As ações da empresa subiram cerca de 8% após o anúncio, com analistas destacando que a combinação da expertise em aeronave da Joby com a capacidade de desenvolvimento imobiliário e automação da Atoms pode acelerar significativamente o processo de expansão de vertiports, que é hoje o gargalo principal do setor.
Joby Aviation: mais perto do lançamento comercial
A Joby Aviation está em um dos momentos mais avançados de sua historia. A empresa, fundada em 2009 por JoeBen Bevirt e hoje parcialmente de propriedade da Toyota, desenvolveu uma aeronave eVTOL com cinco rotores e capacidade para quatro passageiros mais um piloto. O veículo pode voar a até 322 km/h e tem autonomia de cerca de 161 km por carga.
No segundo trimestre de 2026, a Joby reportou crescimento de receita impulsionado pela aquisição da Blade Urban Air Mobility, empresa de voos compartilhados de helicóptero. A unidade Blade gerou US$ 36,2 milhões em receita apenas no Q2, levando a Joby a elevar sua projeção de receita anual para entre US$ 115 milhões e US$ 125 milhões. O prejuízo líquido trimestral caiu para US$ 245 milhões, uma melhora relevante em relação a períodos anteriores.
A empresa participa do Integration Pilot Program, iniciativa da Casa Branca que apoia empresas de mobilidade aérea avançada na realização de operações piloto. O programa busca acelerar a certificação e a operação comercial de eVTOLs nos Estados Unidos, com suporte federal para superar obstáculos regulatórios. Joby tem como meta lançar operações comerciais de passageiros ainda em 2026.
A corrida pelos táxis aéreos
A parceria Joby-Atoms acontece em um contexto de intensa competição no setor de eVTOL. A Archer Aviation, apoiada pela United Airlines, planeja lançar serviços comerciais em Los Angeles e Nova York. A Wisk, parceria da Boeing com a Kitty Hawk, aposta em aeronaves totalmente autônomas sem piloto. A Lilium, que passou por recuperação judicial em 2024, tenta um relançamento com nova estrutura societária.
No Brasil, o segmento ainda está distante de uma operação comercial em grande escala, mas o país participa ativamente das discussões globais sobre regulamentação de eVTOLs. A Embraer, por meio de sua subsidiária Eve Air Mobility, desenvolve seu próprio eVTOL e já firmou parcerias com operadores de helicóptero e serviços de transporte no Brasil. A Eve é considerada uma das iniciativas mais avançadas em tecnologia de táxi aéreo fora dos Estados Unidos.
A tecnologia por trás dos eVTOLs
Os veículos eVTOL são, em essência, aeronaves elétricas que decolam e pousam verticalmente, como um helicóptero, mas com uma série de vantagens em relação aos modelos tradicionais. Utilizam múltiplos rotores elétricos em vez de um único rotor de combustão, o que torna o sistema mais redundante e seguro: se um rotor falhar, os demais compensam. O ruído produzido é significativamente menor do que o de helicópteros convencionais, o que facilita a operação em áreas densamente habitadas.
A eletrificação tem também implicações ambientais relevantes. Sem emissões diretas de CO2 durante o voo e com possibilidade de recarga com energia renovável, os eVTOLs se alinham com os objetivos de descarbonização do transporte em áreas urbanas. O custo de operação por hora de voo tende a ser menor do que o de helicópteros, o que, com o amadurecimento do setor, pode tornar o táxi aéreo acessível a um público mais amplo do que o atual mercado de aviação executiva.
Infraestrutura como chave para o futuro
A parceria entre Joby e Atoms ilustra uma mudança de fase no setor de eVTOL: a corrida deixou de ser exclusivamente tecnológica para se tornar também logística. Construir o avião é apenas metade do desafio; construir onde ele pode pousar e decolar, em escala e de forma economicamente viável, é a outra metade. E é exatamente esse o problema que a Atoms se propõe a resolver.
Um voo de eVTOL de Manhattan para o Aeroporto JFK, por exemplo, poderia levar menos de 10 minutos. O mesmo trajeto de carro pode levar mais de uma hora nos horários de pico. Com vertiports estrategicamente posicionados em cidades como Nova York, Los Angeles, Miami e Houston, os táxis aéreos poderiam mudar fundamentalmente a lógica do deslocamento urbano.
O futuro da mobilidade urbana pode estar, literalmente, nos ares. E empresas como Joby e Atoms estão construindo, tijolo por tijolo (e vertiport por vertiport), a infraestrutura que tornará isso possível.
A cobertura original foi publicada pelo TechCrunch.



