A Apple está cortando mais de 200 posições em duas de suas divisões estratégicas: as equipes responsáveis pelo assistente de voz Siri e pelo headset de realidade mista Vision Pro. A reestruturação, confirmada nesta quinta-feira (21) à Bloomberg pela própria empresa, sinaliza uma mudança significativa no rumo dos investimentos internos da companhia em inteligência artificial e hardware imersivo.
Quais equipes foram afetadas
Segundo as informações divulgadas pelo TechCrunch, cerca de 100 funcionários foram desligados da equipe do Apple Vision Pro, o headset de realidade mista que a Apple lançou em fevereiro de 2024 com preço inicial de US$ 3.499. Outras 100 posições foram eliminadas das divisões de Siri e Intelligent Systems Experience, grupos responsáveis pelo desenvolvimento do assistente de voz da Apple e pelas iniciativas de IA cognitiva da empresa.
Em nota à imprensa, a Apple afirmou que “evolui continuamente seus negócios para oferecer as melhores experiências aos usuários” e reconheceu que “alguns cargos foram impactados enquanto a empresa desloca seu foco para longe de certas iniciativas”. A resposta diplomática é comum em reestruturações corporativas, mas o contexto aponta para uma mudança de prioridades com implicações amplas para o ecossistema Apple.
O que está por trás da decisão
A Apple tem enfrentado uma pressão crescente para se posicionar de forma competitiva no mercado de inteligência artificial generativa. Desde o surgimento do ChatGPT da OpenAI, em novembro de 2022, o Siri ficou cada vez mais em desvantagem em comparação com assistentes baseados em grandes modelos de linguagem (LLMs). A Apple Intelligence, plataforma de IA anunciada na WWDC 2024 e gradualmente implementada nos sistemas operacionais da empresa ao longo de 2025, trouxe algumas melhorias, mas o produto ainda enfrenta críticas por não estar à altura do que concorrentes como Google, Microsoft e OpenAI oferecem.
Cortar posições no time do Siri pode parecer contraditório em um momento em que a Apple tenta melhorar seu assistente de IA. Mas especialistas do setor apontam que o movimento pode indicar uma reorganização profunda: ao invés de manter equipes separadas para o Siri como produto de voz e para iniciativas de IA mais amplas, a Apple pode estar consolidando os esforços em grupos menores e mais focados, com arquitetura mais alinhada aos avanços recentes em modelos de linguagem.
A crise do Vision Pro e a reviravolta estratégica
O Apple Vision Pro chegou ao mercado como um produto que a Apple descreveu como o início de uma nova era na computação espacial. No entanto, o alto preço e a ausência de uma proposta clara de valor para a maioria dos usuários limitaram a adoção. Reportagens de analistas e fornecedores ao longo de 2024 e 2025 indicaram que as vendas ficaram abaixo das projeções internas da empresa.
Os cortes anunciados hoje não significam o fim do Vision Pro como plataforma. A Apple tem histórico de persistência em apostas de longo prazo, como o Apple Watch, que demorou anos para se tornar o wearable mais vendido do mundo. Mas a redução do time sugere um recalibramento: menos esforço na iteração imediata do hardware atual e, possivelmente, mais energia direcionada para uma versão mais acessível do dispositivo, que circula em rumores há meses.
Especulações do setor apontam para um Vision Pro de segunda geração com preço significativamente menor, possivelmente entre US$ 1.500 e US$ 2.000, com especificações ajustadas para viabilizar essa redução de custo. Nada foi confirmado pela Apple, mas um produto mais acessível seria essencial para que a plataforma visionOS ganhasse tração com desenvolvedores e consumidores de forma mais ampla.
Desafios de mercado que pesam sobre a Apple
Além da competição em IA, a Apple enfrenta pressões de custo decorrentes de uma escassez global de memória semicondutora. O fenômeno, impulsionado pela explosão da demanda por chips de IA, elevou os preços de componentes de DRAM e NAND flash, o que se reflete nos custos de produção de Macs e iPads. A empresa respondeu com ajustes de preço em alguns produtos, o que reduz a demanda e aumenta a pressão sobre as margens.
Ao mesmo tempo, a Apple trava uma disputa legal com a OpenAI por alegações de roubo de segredos industriais. A relação entre as duas empresas é complexa: a Apple firmou parceria com a OpenAI para integrar o ChatGPT ao iOS 18 como parte do Apple Intelligence, mas o processo judicial revela tensões que podem afetar essa colaboração no futuro.
Impacto para usuários e desenvolvedores brasileiros
Para os usuários de iPhone, iPad e Mac no Brasil, as mudanças no Siri têm impacto direto. O assistente de voz é a porta de entrada da IA para dezenas de milhões de usuários no mundo todo. Qualquer melhoria nessa experiência, mesmo que fruto de uma reestruturação dolorosa, pode se traduzir em recursos mais úteis nas próximas versões do iOS e do macOS.
Para desenvolvedores que investiram na plataforma visionOS, a notícia traz certa incerteza. Menos pessoas trabalhando no Vision Pro pode significar atualizações menos frequentes de APIs e ferramentas, o que afeta quem constrói aplicativos para o dispositivo. Por outro lado, se a Apple estiver de fato preparando uma versão mais acessível do headset, a base de usuários potenciais cresceria exponencialmente, tornando o investimento no desenvolvimento de apps mais atraente.
Uma empresa em transição
O que estamos vendo na Apple hoje é uma empresa em transição. A companhia que definiu as regras do ecossistema de smartphones por mais de 15 anos agora precisa reinventar parte de sua infraestrutura de software para se manter relevante em uma era moldada pela inteligência artificial. Os cortes no Siri e no Vision Pro são sintomas dessa reinvenção: momentos de desconforto que, se bem executados, podem resultar em produtos mais competitivos nos próximos anos.
A Apple já provou, com o Apple Watch e os AirPods, que sabe transformar apostas inicialmente tímidas em categorias dominantes. Se conseguir repetir esse feito com o Siri e a computação espacial, a reestruturação atual pode ser vista, no futuro, como um ponto de virada estratégico importante para a companhia.
Leia a matéria original no TechCrunch.



