A Apple pode estar se preparando para a maior reformulação do Apple Watch desde o seu lançamento, em 2015. De acordo com Mark Gurman, repórter especializado em Apple na Bloomberg e responsável por alguns dos vazamentos mais precisos da indústria de tecnologia, a empresa explora internamente conceitos radicalmente distintos para o wearable mais vendido do mundo. Entre as ideias em avaliação, estão uma caixa completamente redonda e um dispositivo sem tela, possibilidades que representariam uma ruptura histórica com o DNA visual do produto.
As informações foram divulgadas na coluna Power On, de Gurman, publicada no início de agosto de 2026. O jornalista foi cuidadoso ao enfatizar que os projetos ainda estão em fase conceitual inicial e que nenhum deles tem data de lançamento confirmada. Ainda assim, a revelação causou reação imediata entre entusiastas de tecnologia e analistas do setor, que viram nos vazamentos um sinal de que a Apple avalia com seriedade um redesenho profundo do produto.
Design redondo: uma virada de 180 graus
Desde 2015, o Apple Watch manteve seu formato característico: uma caixa quadrada com cantos arredondados. Ao longo de onze gerações, as mudanças foram graduais – telas maiores, bordas mais finas, novas opções de material – mas a silhueta permaneceu praticamente a mesma. Um modelo com caixa redonda representaria uma quebra sem precedentes nesse padrão.
De acordo com Gurman, a probabilidade de esse conceito chegar ao mercado é baixa no curto prazo. A Apple teria dificuldades técnicas e de software para adaptar o watchOS a uma tela circular. Diferente de concorrentes como o Samsung Galaxy Watch, que adota a forma redonda há anos, a interface do watchOS foi projetada do zero para aproveitar o espaço retangular. Adaptar apps, notificações e menus para um display circular exigiria uma reformulação significativa do sistema operacional e dos aplicativos.
Do ponto de vista do consumidor, porém, a ideia tem apelo óbvio. Muitos usuários relutam em adotar o Apple Watch justamente por considerar o design muito tecnológico ou distante de um relógio convencional. Uma caixa circular aproximaria o produto esteticamente dos relógios tradicionais, potencialmente atraindo um público que hoje escolhe smartwatches concorrentes ou que simplesmente prefere não usar relógio algum.
Rastreador sem tela: o anti-smartwatch da Apple
A segunda proposta em avaliação é igualmente ousada: um dispositivo focado em monitoramento de saúde que não teria tela alguma. Sem display, o produto não exibiria notificações, aplicativos ou informações diretamente no pulso. Todas as interações seriam mediadas pelo iPhone, e a função central seria coletar dados biométricos de forma contínua e discreta.
Esse modelo posicionaria a Apple diretamente contra produtos como o Oura Ring, smart ring usado no dedo que virou febre entre profissionais de saúde, atletas e executivos de tecnologia. O Whoop, rastreador de pulso sem tela popular em academia e esportes de alto rendimento, é outro concorrente direto. Ambos os produtos têm em comum a proposta de coleta de dados sem a distração de uma tela no corpo.
A Apple já possui sensores avançados no Apple Watch, incluindo eletrocardiograma (ECG), oxímetro de pulso (SpO2), sensor de temperatura de pele e acelerômetro para detecção de quedas. Um dispositivo sem tela poderia reunir esses recursos em um formato mais discreto e potencialmente mais barato, tornando o monitoramento de saúde acessível para usuários que não querem um smartwatch completo no pulso.
O ecossistema Apple seria o diferencial competitivo. Todos os dados coletados pelo dispositivo seriam consolidados no aplicativo Saúde do iPhone, que já é uma das plataformas de saúde pessoal mais completas disponíveis para consumidores. A integração com o Apple Watch, para usuários que tivessem ambos, também seria natural e transparente.
Expansão para novos pontos de preço
Além dos conceitos de design, Gurman revelou que a Apple avalia expandir a linha Apple Watch para pontos de preço mais amplos. Haveria interesse em desenvolver modelos mais baratos do que o Apple Watch SE atual, voltados para o mercado de entrada, e versões mais caras do que o Apple Watch Ultra 2, para consumidores que querem o máximo em tecnologia wearable.
Para o mercado brasileiro, um Apple Watch mais barato que o SE seria uma novidade bem-vinda. O modelo SE já é posicionado como a opção econômica da linha, mas seu preço no Brasil ainda é significativo, dificultando a penetração entre consumidores com orçamento mais restrito. Uma versão entry-level poderia ampliar muito o alcance do produto no país.
No extremo oposto, uma versão acima do Ultra seria voltada para usuários que já utilizam o Apple Watch em atividades extremas, como alpinismo, mergulho profundo ou triatlo, e que demandam ainda mais autonomia de bateria, resistência mecânica e precisão de sensores. Recursos como monitoramento de glicose sem agulha, que a Apple pesquisa há anos, poderiam estrear nessa categoria.
O que esperar no curto prazo
É importante contextualizar: Gurman deixou claro que os conceitos descritos estão em fase muito inicial de desenvolvimento. Os próximos modelos do Apple Watch, esperados para o final de 2026 e 2027, devem priorizar melhorias de desempenho de chip e novas funcionalidades de saúde por software, sem mudanças radicais na forma do produto.
A possibilidade de um Apple Watch redondo ou sem tela, portanto, pertence ao horizonte de médio a longo prazo da empresa, talvez 2028 ou depois. Mesmo assim, o fato de esses conceitos existirem internamente é significativo. A Apple raramente investe tempo e recursos em explorar ideias sem qualquer potencial de se tornarem produto real.
O mercado de wearables em transição
A movimentação interna da Apple reflete uma tendência mais ampla: o mercado de wearables está em busca de novos formatos. A Samsung aposta em integração profunda com Galaxy AI. A Garmin domina nichos esportivos. O Oura e o Whoop conquistaram usuários que preferem discrição a funcionalidade. A Apple, que quase sozinha legitimou a categoria de smartwatch em 2015, tem agora a oportunidade de redefinir o que um wearable de saúde pode ser.
Se os conceitos revelados por Gurman chegarem ao mercado, o Apple Watch do futuro pode ser muito diferente do produto que os consumidores conhecem hoje: mais discreto, mais acessível ou mais especializado, dependendo de qual aposta a empresa decidir levar adiante. Por enquanto, são conceitos. Mas na Apple, os conceitos de hoje costumam ser os produtos de amanhã.
A reportagem original foi publicada pelo Canaltech.



