A Uber firmou acordos com aproximadamente 30 empresas de veículos autônomos nos últimos dois anos, construindo um ecossistema que já cobre dezenas de cidades em quatro continentes. A estratégia não é desenvolver a tecnologia internamente, mas atuar como uma plataforma que conecta passageiros a diferentes empresas de direção autônoma, de modo semelhante ao que já faz com motoristas humanos. O resultado é uma aposta ambiciosa: transformar a maior rede de transporte por aplicativo do mundo em uma infraestrutura global de robotáxis.
Uma plataforma, muitos parceiros
A empresa chama essa abordagem de estratégia global. Em vez de apostar tudo em um único parceiro tecnológico ou fabricante de veículos, a Uber diversificou suas apostas de forma agressiva, cobrindo todas as partes do ecossistema de mobilidade autônoma: software de condução, fabricantes de veículos, operadores de frota, robôs de entrega de calçada e infraestrutura tecnológica.
O resultado é uma rede que vai da Waymo à Baidu, da Aurora à Momenta, da Rivian à Lucid Motors. Cada parceiro ocupa uma fatia específica da operação ou uma região geográfica particular. É uma arquitetura que lembra menos uma empresa de tecnologia e mais uma construtora de ecossistemas, como a própria Uber fez com o mercado de motoristas por aplicativo ao longo de duas décadas.
A reportagem do TechCrunch publicada nesta sexta-feira (1) mapeou todos os acordos firmados pela Uber e identificou mais de 30 parceiros ativos, entre startups de direção autônoma, fabricantes tradicionais de automóveis, operadores de frota e fornecedores de infraestrutura tecnológica.
Os grandes nomes da tecnologia de condução autônoma
No lado do software de direção autônoma, a lista de parceiros inclui alguns dos maiores nomes do setor:
Aurora opera em parceria com a Uber no Texas, com foco em Dallas, Houston e Austin. A empresa utiliza caminhões autônomos e planeja expandir para robotáxis nos próximos anos.
Waymo, a veterana autônoma do Google, manteve acordo com a Uber em Phoenix, encerrado em julho de 2026, mas segue em negociações para Austin e Atlanta. É uma relação complexa: as duas empresas competem diretamente em algumas cidades, enquanto colaboram em outras.
Wayve é uma empresa britânica que integra seu software de direção autônoma baseado em inteligência artificial em um Nissan Leaf para operar na rede da Uber no Japão. É um dos primeiros exemplos de parceria da Uber fora do mercado americano para robotáxis.
Pony.ai, Momenta e Baidu são os parceiros focados no mercado chinês e asiático, onde a Uber não opera diretamente mas tem interesse estratégico por meio de acordos tecnológicos e de dados.
Zoox, subsidiária da Amazon, é um dos casos mais interessantes. A empresa lançará robotáxis diretamente no aplicativo da Uber em Las Vegas em 2026, com expansão para Los Angeles em 2027. É a primeira vez que a Amazon entra diretamente em uma rede de transporte por aplicativo concorrente.
Fabricantes de veículos entram na equação
A Uber também fechou acordos com fabricantes de veículos elétricos para garantir o hardware necessário para as operações autônomas. Dois contratos se destacam pelo volume e pelo investimento envolvido.
O acordo com a Rivian prevê a compra de até 10.000 veículos do modelo R2, com lançamento planejado para São Francisco e Miami em 2028 e expansão para 25 cidades até o fim de 2031. O contrato inclui um compromisso financeiro de até 1,25 bilhão de dólares, o que o torna um dos maiores acordos de veículos elétricos autônomos da história.
Com a Lucid Motors, a Uber fechou um pedido de 35.000 veículos do SUV Gravity, equipados com tecnologia de direção autônoma da Nuro, uma startup especialista em veículos autônomos de entrega. O investimento na Lucid supera 500 milhões de dólares.
Nissan, Mercedes-Benz, Volkswagen com sua subsidiária MOIA e Stellantis também figuram entre os parceiros de fabricação, cobrindo diferentes segmentos de mercado e regiões geográficas.
Além dos robotáxis: a frota de robôs de calçada
A estratégia da Uber vai além do transporte de passageiros. A empresa também firmou acordos com startups de robôs de calçada para expandir o Uber Eats com entregas autônomas de menor custo:
Serve Robotics e Cartken já operam em cidades americanas para entregar pedidos de restaurantes diretamente nas calçadas, sem necessidade de motorista. Starship Technologies, líder em entregas por robô, tem presença em campi universitários dos Estados Unidos e Europa. Flytrex, por sua vez, especializa-se em entregas por drone para áreas residenciais.
É uma camada adicional do ecossistema que poucos esperavam. Enquanto o debate público gira em torno de carros sem motorista, a Uber já está construindo uma infraestrutura paralela de entregas autônomas que não depende de aprovações para circular em vias públicas com a mesma complexidade regulatória dos robotáxis.
As cidades onde a Uber já opera robotáxis
As operações de robotáxi da Uber já estão ativas ou em fase avançada de planejamento em dezenas de cidades ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, São Francisco, Houston, Dallas, Austin, Las Vegas, Los Angeles e Miami estão entre os mercados prioritários.
Fora dos Estados Unidos, a empresa avança em Tóquio, Londres, Munique, Dubai, Abu Dhabi, Riad, Madri, Zurique e Osaka. A WeRide, parceira da Uber no Oriente Médio, planeja operar 1.200 robotáxis na região até 2027 e expandir para 15 cidades até 2030.
Nvidia fornece a base tecnológica
Por baixo de toda essa rede, a Nvidia tem um papel central que passa despercebido nas manchetes sobre robotáxis. A Uber adotou a plataforma Hyperion da Nvidia como infraestrutura tecnológica padrão para os veículos autônomos dos seus parceiros. A plataforma inclui sensores, computadores embarcados e software de treinamento para sistemas de direção autônoma, funcionando como uma linguagem comum que facilita a integração entre os diferentes parceiros.
É uma jogada inteligente da Nvidia: ao se tornar o padrão de fato da maior rede de mobilidade autônoma do mundo, a empresa garante demanda crescente pelos seus chips e plataformas de IA, independente de qual parceiro tecnológico vencer a corrida pela autonomia em cada mercado.
O que muda para o usuário comum
Na prática, a estratégia da Uber representa uma mudança gradual na forma como as pessoas se locomovem nas cidades. O modelo atual, em que um motorista humano é sempre necessário, deve conviver por anos com os veículos autônomos antes de ser substituído. A própria Uber admite que o processo é lento e depende de aprovações regulatórias, condições climáticas, infraestrutura viária e maturidade dos sistemas de inteligência artificial.
Para o Brasil, o cenário ainda está distante. Não há nenhum parceiro da Uber com operações planejadas para cidades brasileiras, e a regulação de veículos autônomos no país ainda está em fase inicial. Mas a consolidação do ecossistema global vai eventualmente criar pressão para que a tecnologia chegue a mercados emergentes, seja por meio da própria Uber ou de competidores que seguirem a mesma lógica de plataforma.
Para o passageiro, a diferença será progressiva. Primeiro surgirão corredores específicos em cidades selecionadas, depois bairros inteiros, depois regiões metropolitanas. O carro sem motorista no aplicativo pode parecer distante hoje, mas já tem um endereço, um parceiro tecnológico e um contrato assinado.



