A demanda explosiva por chips de memória para infraestrutura de inteligência artificial gerou um efeito colateral inesperado: o encarecimento dos componentes essenciais para a fabricação de smartphones. E o primeiro grande fabricante a sentir esse impacto de forma concreta foi a Samsung, que registrou em 2026 o primeiro prejuízo operacional da história de sua divisão de smartphones.
A divisão DX (Device eXperience), responsável pelos celulares Galaxy, registrou uma perda operacional de 800 bilhões de wons, o equivalente a aproximadamente 544 milhões de dólares. O resultado surpreende porque a Samsung continua vendendo bem seus aparelhos de alto padrão, como o Galaxy S26 e o Galaxy S26 Ultra. O problema está nos modelos de entrada e intermediários, que foram diretamente afetados pelo aumento no custo dos componentes.
Por que a IA está encarecendo os celulares
Para entender o que está acontecendo, é preciso olhar para como funciona a cadeia de suprimentos de eletrônicos de consumo. Chips de memória RAM e NAND Flash são ingredientes essenciais tanto para smartphones quanto para os servidores que alimentam data centers de inteligência artificial.
Com a explosão dos investimentos em infraestrutura de IA, empresas como Microsoft, Google, Amazon e Meta passaram a demandar volumes cada vez maiores de chips de memória de alta performance para seus servidores. Isso criou uma pressão enorme sobre os fabricantes de memória – incluindo a própria divisão de semicondutores da Samsung – que passou a priorizar os clientes corporativos, que pagam mais por unidade, em detrimento da produção para dispositivos móveis.
O resultado direto é a escassez e o encarecimento dos chips disponíveis para o mercado de smartphones. Fabricantes como Samsung, Xiaomi e outros precisaram absorver custos maiores de componentes ou repassar o aumento ao consumidor final. Nos modelos de entrada e intermediários, onde as margens já são apertadas, absorver esse custo se tornou inviável.
Os números por trás da crise
O paradoxo financeiro da Samsung no trimestre recente é revelador. Enquanto a divisão de smartphones operou no prejuízo pela primeira vez na história, a divisão de semicondutores da empresa teve um de seus melhores trimestres de todos os tempos, com crescimento de 56% nas vendas e lucro operacional recorde de 62,2 bilhões de dólares apenas no setor de memória.
A receita total da Samsung no trimestre chegou a 119 bilhões de dólares – um número robusto. Mas isso mascara uma divisão interna profunda: quem fabrica os chips está ganhando muito; quem usa os chips para fazer smartphones está perdendo.
Para a Samsung, que opera dos dois lados dessa equação, o saldo ainda é positivo no consolidado. Para fabricantes que dependem exclusivamente do mercado de dispositivos, o cenário é mais preocupante.
Quais modelos foram mais afetados
Os aparelhos de topo de linha da Samsung – o Galaxy S26 e o Galaxy S26 Ultra – continuaram apresentando desempenho comercial forte. Esses modelos têm margens maiores e um público disposto a pagar pelo que há de melhor, o que permite à empresa absorver parte do aumento de custo nos componentes sem comprometer a rentabilidade.
O problema se concentrou nos segmentos de entrada e intermediário, que representam a maior fatia do volume de vendas global de smartphones. Celulares com preços entre 200 e 600 dólares são os mais sensíveis a variações no custo dos componentes, e foi exatamente nessa faixa que a Samsung sofreu a maior pressão de margem.
A tendência tem implicações diretas para consumidores no Brasil, onde a maior parte do mercado de smartphones se concentra justamente nos segmentos intermediários. Se o custo dos chips continuar elevado, a pressão por reajustes de preço deve se intensificar ao longo dos próximos trimestres.
O que a Samsung planeja fazer
Diante do resultado, a Samsung anunciou que pretende reposicionar sua linha de produtos com foco em aparelhos de maior valor agregado. A estratégia é aumentar a participação dos modelos premium no mix de vendas, reduzindo a dependência das linhas de entrada onde as margens foram destruídas pelo aumento dos custos.
Na prática, isso pode significar menos opções acessíveis com a marca Samsung nos próximos ciclos de lançamento, ou um reposicionamento de preços nas linhas mais baratas. A empresa também indicou que está trabalhando para diversificar fornecedores de componentes e otimizar processos internos de fabricação para reduzir a exposição a flutuações de preço de commodities de tecnologia.
Um sinal do que pode vir por aí
O caso da Samsung é um exemplo concreto de como o crescimento da infraestrutura de IA não afeta apenas as empresas que desenvolvem e implantam essa tecnologia. Os efeitos se propagam pela cadeia de suprimentos e chegam até o consumidor final que simplesmente quer comprar um celular novo.
O mercado de semicondutores opera com ciclos. Em algum momento, os investimentos massivos em capacidade de produção devem aumentar a oferta de chips e reduzir os preços. Mas enquanto esse equilíbrio não se restabelece, os fabricantes de dispositivos de consumo continuarão competindo pelos mesmos componentes que alimentam os data centers de IA – e pagando um prêmio cada vez maior por isso.
Para os consumidores, o recado prático é direto: smartphones mais acessíveis podem ficar mais caros nos próximos meses, e mesmo marcas consolidadas como a Samsung não estão imunes à pressão que a corrida pela infraestrutura de IA está exercendo sobre toda a indústria de eletrônicos.
Fonte: Samsung registra 1º prejuízo em sua história devido à crise causada pela IA – Canaltech, 30 de julho de 2026.



