A Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC) entrou com uma ação judicial nesta quarta-feira (30) contra a Hims & Hers, plataforma americana de telemedicina com capital aberto na bolsa de valores. A acusação é grave: a empresa teria instalado rastreadores invisíveis em seu site para capturar dados médicos sigilosos dos usuários e compartilhá-los com gigantes da publicidade digital, como Meta e Snap, sem o conhecimento ou consentimento explícito dos pacientes. O caso é um dos mais significativos envolvendo privacidade de dados de saúde nos EUA nos últimos anos.
O que é a Hims & Hers e quem são os usuários afetados
A Hims & Hers é uma empresa americana de saúde digital fundada em 2017. Oferece consultas médicas online e entrega de medicamentos prescritos diretamente na casa dos pacientes. Seu catálogo inclui tratamentos para saúde sexual masculina e feminina, saúde mental, perda de peso e dermatologia, entre outras áreas. O serviço ganhou popularidade especialmente durante a pandemia, quando visitas presenciais a médicos ficaram restritas em grande parte dos Estados Unidos.
Os usuários afetados são justamente aqueles que buscaram os serviços mais sensíveis da plataforma: pessoas procurando tratamento para disfunção erétil, ansiedade, depressão, obesidade e outras condições de saúde que normalmente guardam sigilo absoluto. Segundo a FTC, esses dados foram coletados e transmitidos a anunciantes sem que os usuários tivessem clareza sobre o que acontecia com suas informações.
Como o rastreamento funcionava na prática
A FTC descreve em detalhe o mecanismo utilizado pela Hims & Hers. A empresa teria instalado pixels rastreadores, pequenas unidades de código invisíveis ao usuário comum, provenientes de plataformas como Meta, Snap, Microsoft, Pinterest, Reddit e X. Esses pixels monitoravam o comportamento dos visitantes no site: quais páginas eram acessadas, quais produtos eram visualizados, quais sintomas eram informados durante o processo de triagem médica e quais tratamentos eram solicitados.
Além dos pixels, a empresa teria utilizado ferramentas da Meta para rastrear cliques e ações dos usuários dentro do site. Na prática, isso significa que uma pessoa que buscou tratamento para depressão ou para saúde sexual na plataforma pode ter tido esse dado enviado automaticamente para os sistemas de publicidade do Facebook, do Instagram e do Snapchat, que os utilizariam para segmentar anúncios com base no perfil de saúde inferido.
Por que isso é especialmente preocupante
Informações de saúde são classificadas, em diversas legislações, como dados sensíveis de categoria especial, que exigem consentimento mais rigoroso para coleta e tratamento. Nos Estados Unidos, a HIPAA (Lei de Portabilidade e Responsabilidade de Seguros de Saúde) protege informações médicas de pacientes em sistemas tradicionais. Mas empresas de tecnologia em saúde que operam fora do sistema tradicional de seguros, como a Hims & Hers, nem sempre estão sujeitas às mesmas regras, o que cria uma zona regulatória cinzenta explorada por anunciantes.
A situação é agravada pelo fato de que os usuários dessas plataformas frequentemente compartilham informações altamente pessoais durante o processo de triagem médica, confiando que essas informações ficam restritas ao ambiente clínico. Quando esses dados chegam às plataformas de anúncios, eles podem ser usados para exibir publicidade relacionada à condição de saúde da pessoa, revelando indiretamente a terceiros informações sobre diagnósticos ou tratamentos em curso.
As acusações da FTC e as práticas de cobrança contestadas
A ação da FTC não se limita ao compartilhamento de dados. A agência também acusa a Hims & Hers de práticas enganosas de cobrança: a empresa teria criado políticas que dificultavam propositalmente o cancelamento de assinaturas pelos clientes, caracterizando violação das leis federais de proteção ao consumidor americanas.
A FTC afirma que a empresa violou sua própria política de privacidade, que declarava de forma genérica que os usuários poderiam “escolher como seus dados seriam utilizados”. Segundo o órgão regulador, essa declaração era insuficiente para configurar um consentimento informado e válido para o compartilhamento de dados médicos com plataformas de publicidade.
Como a Hims & Hers reagiu às acusações
Em nota divulgada após o anúncio da ação, a Hims & Hers afirmou que sua política de privacidade “deixa claro” que os usuários “podem escolher como seus dados são usados” e declarou confiança em sua capacidade de se defender contra as acusações no âmbito judicial. A empresa não comentou diretamente sobre o uso específico dos pixels rastreadores nem sobre os dados efetivamente enviados às plataformas de publicidade.
O que esse caso significa para o setor de saúde digital
A ação da FTC contra a Hims & Hers faz parte de um movimento mais amplo de escrutínio regulatório sobre o uso de rastreadores de publicidade em plataformas de saúde. Nos últimos anos, investigações jornalísticas e estudos acadêmicos revelaram que a prática é disseminada em hospitais, farmácias online e plataformas de telemedicina nos Estados Unidos. Em alguns casos documentados, dados de pacientes com câncer, HIV e problemas de fertilidade foram transmitidos ao Facebook por meio desses mecanismos invisíveis.
Para o usuário comum de plataformas de saúde digital, o caso levanta uma questão fundamental: ao preencher um formulário médico online, quem mais está lendo essas respostas? A presença de pixels de terceiros em sites de saúde significa que informações compartilhadas com o suposto propósito de receber uma orientação médica podem percorrer um caminho muito mais longo, chegando a sistemas de publicidade que as usam para moldar o que o usuário vê nas redes sociais.
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) exige consentimento explícito para o tratamento de dados de saúde e classifica esse tipo de informação como dado sensível, sujeito a maior proteção. Ainda assim, é importante que usuários de plataformas digitais de saúde verifiquem as políticas de privacidade dos serviços que utilizam, atentem para a presença de rastreadores de terceiros e conheçam seus direitos como titulares de dados.
Para acompanhar os detalhes completos da ação judicial, acesse a matéria original publicada pelo TechCrunch.
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