O Instagram começou a testar uma mudança que pode alterar a relação entre a rede social e os criadores brasileiros: vídeos de até 90 minutos, chamados de Features. A novidade abandona a ideia de que o aplicativo deve ser usado apenas para clipes rápidos e coloca a plataforma em uma disputa mais direta com o YouTube. O teste não transforma o Instagram em um serviço de vídeos longos de uma hora para outra, mas mostra que a Meta quer manter dentro do próprio ecossistema as pessoas que hoje usam Reels para descobrir conteúdo e outra plataforma para acompanhar a versão completa.
A informação foi publicada pelo TechCrunch em 26 de outubro de 2026. Segundo a reportagem, a ferramenta está em teste no Brasil e será ampliada para um grupo pequeno de usuários nos Estados Unidos. A escolha do Brasil é importante porque o país aparece como um dos mercados usados pela empresa para experimentar novos formatos de criação e consumo de vídeo.
O que muda para quem publica conteúdo
Até agora, a lógica mais forte do Instagram era baseada em imagens, Stories e vídeos verticais curtos. O Reels continua existindo e permanece central, mas o novo formato permite que um criador publique uma história mais longa sem dividir tudo em dezenas de partes. Um podcast pode ser colocado na íntegra, uma aula pode ganhar um espaço próprio e uma análise de produto pode explicar contexto, testes e conclusão sem correr para caber em poucos minutos.
A proposta também inclui o recurso Clips as Reels. Ele permite criar cortes verticais a partir do vídeo mais longo e usar esses trechos como porta de entrada para a versão completa. Na prática, isso aproxima o modelo do que o YouTube faz com Shorts e vídeos tradicionais, mas mantém a descoberta e a conversa dentro do Instagram. Um usuário pode chegar por um clipe rápido, entender o assunto e tocar no link para assistir ao conteúdo completo.
Para o criador, essa combinação pode simplificar o planejamento editorial. Em vez de produzir uma peça curta sem relação com o restante do canal, a pessoa pode gravar uma entrevista, uma demonstração ou um episódio e reaproveitar partes relevantes em Reels. O ganho potencial está na distribuição, não apenas na duração. Um vídeo longo organiza a narrativa, enquanto os cortes ajudam a alcançar pessoas que ainda não conhecem o perfil.
Por que o YouTube continua sendo o alvo
O YouTube construiu uma vantagem difícil de copiar porque combina busca, recomendação, vídeos extensos e um programa de participação na receita publicitária. O TechCrunch observa que a plataforma informou ter pago mais de 100 bilhões de dólares a criadores, artistas e empresas de mídia nos quatro anos anteriores. Esse tipo de remuneração direta é diferente da realidade mais comum do Instagram, em que muitos criadores dependem de marcas, assinaturas e vendas próprias.
O desafio da Meta não é apenas permitir um arquivo maior. É criar um modelo que faça sentido para quem trabalha com conteúdo. Vídeos longos oferecem mais espaço para publicidade, mas também exigem armazenamento, moderação, ferramentas de edição, busca e uma recomendação capaz de diferenciar um episódio completo de uma repetição pouco útil. Se o usuário não encontra rapidamente o que quer ou se a remuneração permanece incerta, a nova duração pode virar apenas um recurso de hospedagem.
O próprio Adam Mosseri, chefe do Instagram, explicou que a plataforma quer tornar o vídeo curto e o longo complementares. Essa ideia é diferente de abandonar o Reels. O objetivo é permitir que o mesmo criador conte uma história em formatos diferentes, com cada etapa cumprindo uma função. O clipe chama atenção, o episódio desenvolve o tema e a conversa nos comentários mantém a audiência próxima.
O que o teste significa para o público brasileiro
Para quem usa Instagram no Brasil, a novidade pode ser percebida primeiro por perfis selecionados, e não como uma função disponível para todos. A reportagem não informa uma data de lançamento amplo nem um modelo definitivo de monetização. Portanto, ver um vídeo longo no aplicativo não significa que qualquer conta já possa publicar ou receber dinheiro pela audiência.
Mesmo assim, o teste é relevante para usuários avançados e profissionais digitais. A escolha de qual plataforma usar deixa de ser apenas uma questão de alcance. Também envolve formato, direitos sobre o conteúdo, ferramentas de análise e possibilidade de construir uma base de seguidores que não dependa exclusivamente de uma recomendação automática. Quem trabalha com educação, jornalismo, tecnologia, games ou análises pode acompanhar se os vídeos longos geram retenção melhor do que uma sequência de cortes.
Para o espectador, a mudança traz conveniência, mas também pode aumentar a quantidade de vídeos extensos misturados ao feed. O Instagram terá de explicar por que cada peça aparece e oferecer controles de descoberta que não transformem a experiência em uma fila infinita de episódios. A melhor versão da proposta é aquela em que o usuário escolhe aprofundar um assunto. A pior é aquela em que o formato longo apenas repete o conteúdo curto em uma tela maior.
O que observar nos próximos meses
Três sinais serão decisivos. O primeiro é a disponibilidade no Brasil, incluindo compatibilidade com o aplicativo para televisão. O segundo é a forma como o Instagram mede e remunera a audiência, especialmente fora de campanhas com marcas. O terceiro é a integração entre Clips as Reels, páginas de perfil e vídeos episódicos. Se esses elementos funcionarem juntos, a Meta poderá oferecer uma alternativa real para criadores que desejam publicar séries e programas. Se não funcionarem, o Features pode repetir a história do IGTV, que também tentou levar vídeos longos à plataforma e acabou descontinuado.
A novidade interessa porque muda o papel do Instagram, não porque cria apenas um limite maior de duração. A rede está tentando ser o lugar em que a pessoa descobre, assiste e acompanha uma história completa. O teste no Brasil dará uma pista importante sobre a disposição do público de trocar uma sequência de clipes por uma experiência mais próxima de um canal de vídeo.
Fonte original: TechCrunch, Watch out, YouTube; Instagram goes from short-form to 90-minute videos, publicada em 26 de outubro de 2026.



