Jill Lepore e historiadora em Harvard, redatora do New Yorker e autora de trabalhos fundamentais sobre historia americana. Em seu novo livro, “The Rise and Fall of the Artificial State” (O Surgimento e o Declinio do Estado Artificial), ela lanca um olhar critico sobre o Vale do Silicio – e o que ela encontrou e perturbador para quem trabalha ou depende de tecnologia no dia a dia.
Em entrevista ao TechCrunch, Lepore articulou um argumento que vai alem da critica ao capitalismo tecnologico. Ela argumenta que as grandes empresas de tecnologia estao construindo o que ela chama de “Estado Artificial”: uma estrutura paralela que substitui funcoes governamentais sem que ninguem tenha consentido com isso. E ela acredita que esse estado esta fadado ao fracasso.
O que e o “Estado Artificial” e por que ele importa?
Para Lepore, o conceito de Estado Artificial descreve o processo pelo qual corporacoes privadas assumem funcoes que historicamente pertencem a governos democraticos. Ela nao esta falando apenas de poder economico ou influencia politica – ela esta descrevendo uma substituicao funcional de instituicoes publicas por empresas privadas.
“Ninguem consentiu com isso”, afirmou Lepore na entrevista. A observacao e direta ao ponto: quando plataformas como o X (antigo Twitter) ou o Facebook se tornam a infraestrutura de comunicacao publica de bilhoes de pessoas, elas assumem um papel que vai muito alem do de uma empresa de tecnologia. Elas passam a moderar discurso, definir quem tem voz e quem nao tem, e estabelecer regras para debates que afetam eleicoes, saude publica e coesao social.
O argumento nao e nostalgico nem antimoderno. Lepore reconhece que a tecnologia transforma sociedades e que isso nao e necessariamente ruim. O problema, segundo ela, e a ausencia de mecanismos democraticos que permitam as populacoes afetadas participarem das decisoes que moldam essa transformacao.
Por que os lideres do Vale do Silicio sao “leitores ruins” de ficcao cientifica?
Um dos argumentos mais provocativos do livro e a afirmacao de que figuras como Elon Musk sao “maus leitores” da ficcao cientifica que os inspira. Lepore nao esta criticando o gosto literario deles – ela esta fazendo uma observacao sobre como eles interpretam as narrativas que consomem.
A ficcao cientifica, em sua forma mais rica, e um genero que usa cenarios futuros ou alternativos para criticar o presente. Obras como “1984”, “Admiravel Mundo Novo” ou “Eu, Robo” nao sao manuais de como construir o futuro – sao advertencias sobre o que pode dar errado. Quando lideres tecnologicos adotam esses universos ficcionais como modelos aspiracionais, estao invertendo o sinal critico original.
Sobre Musk especificamente, Lepore observou que “o material que Musk gosta realmente derrota todas as suas crencas politicas”. Em outras palavras, as obras que ele cita como inspiracao frequentemente contem criticas precisamente ao tipo de concentracao de poder e falta de responsabilidade democratica que suas empresas exemplificam.
Esse argumento vai alem de Musk. E uma observacao sobre uma cultura mais ampla no Vale do Silicio, onde o vocabulario da ficcao cientifica, de “singularidade” a “perturbacao” a “colonizacao espacial”, e usado para justificar decisoes de negocio sem o contexto critico que deu origem a esses conceitos.
O mito da “praca publica digital”
Lepore e especialmente critica sobre a narrativa do Twitter como “praca publica digital”, uma autoimagem que a plataforma cultivou durante anos e que Musk reativou ao adquiri-la em 2022. Para a historiadora, a ideia e “absolutamente absurda”.
O argumento e empirico: apenas uma fracao pequena da populacao americana usava o Twitter ativamente, e essa fracao era demograficamente enviesada em termos de educacao, renda e visibilidade publica. Uma praca publica genuina e um espaco onde qualquer cidadao pode participar; o Twitter nunca foi isso – foi sempre uma plataforma com barreiras de entrada, mecanismos de amplificacao seletiva e algoritmos que favoreciam certos tipos de conteudo.
A narrativa da praca publica tambem serve como escudo retorico: ao se apresentar como infraestrutura democratica, as plataformas resistem a regulacao com o argumento de que interferi-las seria censurar a liberdade de expressao. Lepore questiona se esse enquadramento e honesto intelectualmente.
Por que o Estado Artificial esta fadado ao fracasso?
A conclusao mais sombria de Lepore nao e que o Vale do Silicio e mal – e que o projeto inteiro e insustentavel. O Estado Artificial, argumenta ela, “esta fadado ao fracasso porque depende de destruir o mundo natural para se sustentar”.
Ela esta se referindo ao impacto ambiental dos data centers, ao consumo de agua para resfriamento, a mineracao de materias-primas para chips e dispositivos, e ao custo energetico de manter sistemas de IA em escala global. Esses custos sao externalizados – pagos pela sociedade em geral, nao pelas empresas que se beneficiam deles.
Mas ha tambem uma insustentabilidade politica. Sistemas que concentram poder sem mecanismos de prestacao de contas tendem a gerar resistencia. E a resistencia as grandes empresas de tecnologia, que antes era marginal, tornou-se uma forca politica significativa tanto na esquerda quanto na direita em varios paises, incluindo o Brasil.
O papel dos historiadoes no dialogo com a tecnologia
Lepore nao se contenta com o diagnostico. Ela faz um apelo concreto: historiadoes precisam participar ativamente do debate sobre tecnologia, e as empresas de tecnologia precisam estar dispostas a ouvir perspectivas que nao vem do ecossistema do Vale do Silicio.
“Historiadoes oferecem perspectivas sobre mudanca tecnologica baseadas em evidencias empiricas”, disse ela. A historia mostra, por exemplo, como tecnologias anteriores, de ferrovias a televisao a internet, passaram por ciclos de entusiasmo, concentracao de poder, resistencia popular e regulacao. Esses ciclos nao sao deterministas, mas ignorar os padroes historicos e uma forma de arrogancia intelectual.
Para o leitor de tecnologia no Brasil e no mundo, o livro de Lepore levanta questoes que vao alem da academia. As plataformas que usamos para nos comunicar, trabalhar e consumir informacao sao geridas por quem? Com que criterios? Com que responsabilidade diante de quem afetam? Essas nao sao perguntas novas, mas raramente recebem respostas satisfatorias das proprias empresas.
Conclusao
O argumento de Jill Lepore nao e que a tecnologia e ruim ou que devemos retroceder. E que as narrativas que o Vale do Silicio usa para justificar seu poder, de praias publicas digitais a leituras de ficcao cientifica, raramente sobrevivem a um exame historico rigoroso.
Para desenvolvedores, profissionais de tecnologia e usuarios avancados, o livro oferece um espelho incomodo. As ferramentas que construimos e usamos existem dentro de estruturas de poder que escolhemos, consciente ou inconscientemente, apoiar ou questionar. Lepore esta argumentando que a segunda opcao e mais interessante – e historicamente mais honesta.
“The Rise and Fall of the Artificial State” esta disponivel em ingles. A entrevista completa foi publicada pelo TechCrunch.



