A Meta está usando modelos de linguagem de grande escala (LLMs) para acelerar o desenvolvimento de software e lançar novos aplicativos ao consumidor em um ritmo que a empresa jamais alcançou antes. O CEO Mark Zuckerberg confirmou a estratégia durante a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026, afirmando que mais aplicativos estão chegando em breve e que a inteligência artificial está tornando o processo de criação “muito mais fácil”.
A mudança representa uma virada histórica para a companhia, que acumulou uma longa cadeia de fracassos em tentativas de diversificar além de suas plataformas principais. Facebook, Instagram e WhatsApp continuam sendo as bases do negócio, mas a empresa nunca conseguiu criar novos produtos de sucesso fora desse núcleo. Desta vez, porém, o contexto é diferente: os modelos de IA permitem que equipes menores desenvolvam, testem e escalem produtos com uma velocidade que antes exigiria times muito maiores e ciclos de desenvolvimento muito mais longos.
Os novos aplicativos lançados pela Meta
Nos últimos meses, a Meta lançou uma série de novos aplicativos que ilustram essa estratégia de expansão acelerada por IA:
- App para vendedores do Marketplace: voltado para quem vende produtos na plataforma, com recursos de gestão de anúncios e comunicação com compradores diretamente pelo app.
- Forum: aplicativo independente para grupos do Facebook, permitindo que comunidades interajam fora do feed principal, com uma experiência focada em discussão e organização por tópicos.
- Pocket: app focado em jogos casuais, desenvolvido com vibe coding, uma técnica em que engenheiros descrevem o que querem em linguagem natural e a IA gera o código correspondente.
- Instagram Instants: novo formato de fotos que desaparecem, resgatando um conceito similar ao do Snapchat mas integrado ao ecossistema do Instagram, com recursos de edição aprimorados por IA.
- Experiência de histórias para dormir com IA: aplicativo experimental voltado a crianças, que usa geração de conteúdo por inteligência artificial para criar histórias personalizadas na hora de dormir, adaptando o enredo às preferências e à faixa etária de cada criança.
Todos esses lançamentos foram construídos com o auxílio direto de ferramentas de IA que automatizam partes significativas do processo de desenvolvimento, desde a escrita de código até a avaliação de qualidade do conteúdo e a detecção de tendências de uso.
O que Zuckerberg disse sobre o papel da IA
Em declaração durante a call de resultados do segundo trimestre, Zuckerberg foi direto: “Estou animado com a forma como a IA está ajudando nossas equipes a acelerar o desenvolvimento de produtos” e “espero que fique muito mais fácil lançar novos aplicativos”. O CEO também anunciou que a empresa está “planejando construir mais ideias e usar nossos sistemas de recomendação para escaloná-las”.
A CFO Susan Li complementou a visão técnica ao explicar como os LLMs estão tornando os sistemas internos da Meta mais inteligentes: “Os LLMs são cada vez mais capazes de entregar ganhos de ranqueamento e recomendação, tornando os sistemas existentes mais eficientes e ajudando na engenharia por meio da avaliação de qualidade de conteúdo e detecção de tendências.”
Um dos resultados mais concretos dessa aposta já é visível: o Threads, aplicativo de texto da Meta lançado como alternativa ao X (antigo Twitter), chegou a 500 milhões de usuários mensais ativos. Grande parte desse crescimento é atribuído ao sistema de recomendações baseado em IA, que entrega conteúdo relevante mesmo para usuários que ainda não seguem muitas pessoas.
O histórico de fracassos que tornam a virada mais significativa
Para entender por que essa estratégia chama atenção, é preciso olhar para o passado recente da empresa. A Meta tentou diversificar com novos aplicativos pelo menos duas vezes antes, e falhou nas duas.
A primeira tentativa foi o Creative Labs, nos anos 2010. A iniciativa produziu aplicativos como Slingshot, Rooms, Paper, Moments e Riff, todos descontinuados até 2015 sem alcançar adoção significativa. A segunda tentativa foi o NPE Team (New Product Experimentation), que testou apps como Bump, Aux, Move, Spark, CatchUp, E.gg, Venue, Hotline, Super, Tuned e BARS. Todos também foram encerrados ao longo dos anos seguintes.
A diferença agora, segundo a empresa, é justamente a IA. Com ferramentas que permitem prototipagem rápida, geração de código automatizada e avaliação em escala do engajamento do usuário, o custo e o tempo para testar novas ideias caiu dramaticamente. O que antes exigia meses de trabalho de uma equipe dedicada pode agora ser iniciado em dias por um grupo reduzido de engenheiros assistidos por modelos de linguagem.
IA também transforma as plataformas existentes
A estratégia de IA da Meta não se limita ao lançamento de novos aplicativos. A empresa está usando a tecnologia para reformular fundamentalmente como seus produtos existentes funcionam. Zuckerberg revelou que “todo Reel e post do Feed no Instagram é agora processado automaticamente por um LLM e analisado por tema e tom”.
Isso significa que a inteligência artificial não está apenas ajudando a escrever código: ela está lendo e classificando cada peça de conteúdo publicada no Instagram antes de decidir para quem e como ela será distribuída. O impacto sobre criadores de conteúdo e usuários é direto. Os feeds ficam mais personalizados, os algoritmos mais sofisticados e as decisões de moderação mais rápidas.
Para criadores e desenvolvedores que trabalham com as plataformas da Meta, seja publicando conteúdo no Instagram, desenvolvendo bots no WhatsApp ou criando aplicativos integrados via API, essa transformação tem implicações práticas importantes. O alcance orgânico, os critérios de recomendação e até a forma como os anúncios são distribuídos estão sendo reconfigurados por esses sistemas de IA.
O que esperar nos próximos meses
Zuckerberg foi propositalmente vago sobre quais serão os próximos aplicativos, mas deixou claro que há mais por vir: “Estamos planejando construir mais ideias.” O timing também é relevante: a empresa está lançando essas novidades justamente quando enfrenta maior concorrência no front de redes sociais, com plataformas como TikTok, Bluesky e BeReal disputando atenção do usuário, e quando o mercado de IA está em plena ebulição.
A aposta da Meta é usar os bilhões de usuários de suas plataformas como rede de distribuição para novos produtos, eliminando o maior obstáculo que derrubou tentativas anteriores: a dificuldade de ganhar audiência do zero. Com IA acelerando o desenvolvimento e bilhões de usuários a um clique de distância, a empresa parece finalmente ter encontrado uma fórmula que pode funcionar em escala.
Para o público brasileiro, que está entre os maiores usuários de Instagram e WhatsApp do mundo, esses novos aplicativos devem chegar com localização e suporte em português, seguindo o padrão que a Meta adotou para seus produtos principais. Vale acompanhar os anúncios oficiais nas próximas semanas para saber quais apps chegam primeiro por aqui.
Fonte: TechCrunch – Meta says AI is making it easier to build new apps



