Após uma década servindo ao conselho administrativo da Microsoft, Reid Hoffman anunciou sua saída da empresa em 5 de junho de 2026. A decisão foi formalizada em documento enviado à SEC e representa uma das mudanças mais simbólicas no ecossistema de tecnologia nos últimos meses: um dos maiores investidores e membros de conselho do Vale do Silício abre mão de um cargo de prestígio em uma das maiores empresas do mundo para se dedicar em tempo integral a uma startup de inteligência artificial focada em descoberta de medicamentos.
A startup em questão é a Manus, empresa que usa inteligência artificial para identificar compostos químicos com potencial terapêutico contra doenças graves, especialmente diferentes tipos de câncer. Hoffman é co-fundador e presidente do conselho da Manus. Em entrevista ao seu próprio podcast, o “Possible”, ele explicou a decisão com uma frase direta: “Uma das coisas que percebi no último mês foi que estamos vendo um progresso tão grande com a Manus que preciso voltar ao modo fundador.”
Uma década estratégica na Microsoft
Hoffman ingressou no conselho da Microsoft em 2017, pouco depois da gigante tecnológica adquirir o LinkedIn por US$ 26,2 bilhões em 2016. Na época, a operação foi a maior aquisição da história da Microsoft. Hoffman cofundou o LinkedIn em 2003 e o transformou na principal rede social profissional do mundo, com mais de um bilhão de usuários registrados antes da venda.
Durante os dez anos no conselho, Hoffman participou de decisões que ajudaram a moldar o rumo da Microsoft na era da inteligência artificial. A mais relevante delas foi o investimento inicial de US$ 1 bilhão na OpenAI, aprovado em 2019. Na época, a OpenAI ainda era uma organização sem fins lucrativos com ambições pouco definidas. Hoje, a empresa está avaliada em mais de US$ 852 bilhões após uma rodada de US$ 122 bilhões captada em março de 2026. Aquele investimento inicial transformou a Microsoft em parceira estratégica de uma das empresas mais valiosas do planeta.
A saída de Hoffman do conselho não significa um rompimento com a Microsoft. O relacionamento entre as duas partes permanece cordial e estratégico. Mas ela ilustra uma tendência que vem se tornando cada vez mais frequente no Vale do Silício: executivos e investidores seniores optam por deixar posições em grandes corporações para apostar em startups de alto risco e alto potencial de impacto, especialmente no campo da inteligência artificial.
O que é a Manus e por que ela importa
A Manus não é uma startup comum. Seu CEO é o Dr. Siddhartha Mukherjee, médico, biólogo celular e autor do livro “O Imperador de Todos os Males: Uma Biografia do Câncer”, que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer em 2011. Mukherjee é professor da Universidade Columbia e um dos cientistas mais respeitados de sua geração. Ter um pesquisador desse calibre como líder executivo é uma aposta clara de que a Manus quer ser levada a sério tanto pelo mercado financeiro quanto pela comunidade científica.
A empresa trabalha com o que Hoffman chama de “Move 37 AI”, uma referência a uma jogada surpreendente feita pelo AlphaGo, sistema de inteligência artificial da Google DeepMind, durante sua vitória contra o campeão mundial de Go Lee Sedol em 2016. A jogada 37 foi considerada um erro pelos espectadores humanos, mas se revelou genial: uma estratégia que nenhum jogador humano teria concebido. Hoffman usa essa metáfora para descrever a ambição da Manus: criar uma IA capaz de identificar padrões em química e biologia que os humanos simplesmente não conseguem ver, acelerando radicalmente o processo de descoberta de novos medicamentos.
Descobrir uma nova droga do zero, desde a identificação de um composto promissor até a aprovação regulatória, custa em média US$ 2,6 bilhões e leva mais de dez anos. A inteligência artificial tem o potencial de comprimir esse prazo de maneiras significativas, identificando moléculas candidatas com mais precisão, prevendo efeitos colaterais antes dos ensaios clínicos e sugerindo combinações de compostos que jamais seriam testadas de forma convencional. A Manus quer ser protagonista dessa transformação.
Financiamento e estratégia
A startup já captou mais de US$ 50 milhões em rodadas de seed. Entre os investidores está a General Catalyst, um dos fundos de venture capital mais ativos no ecossistema de saúde digital e inteligência artificial. Hoffman lidera o conselho administrativo e será ainda mais ativo na empresa após sua saída da Microsoft.
A Manus está posicionada em um segmento que atrai cada vez mais capital de risco e interesse estratégico: a biotech orientada por IA. Empresas como Isomorphic Labs, subsidiária da Alphabet, Recursion Pharmaceuticals e Insilico Medicine já demonstraram que a combinação de inteligência artificial com biologia computacional pode gerar resultados reais. O AlphaFold 3, desenvolvido pela Isomorphic em parceria com o Google DeepMind, foi capaz de prever a estrutura tridimensional de praticamente qualquer proteína conhecida, um avanço que vinha sendo buscado há décadas e que revolucionou a base da biologia molecular.
O “modo fundador” como nova tendência
A expressão “modo fundador” se popularizou no ecossistema de tecnologia nos últimos anos para descrever o estilo de liderança hands-on e intenso típico de quem está construindo uma empresa do zero. Investidores e membros de conselho operam em ritmo diferente: acompanham resultados, questionam estratégias, votam em decisões relevantes, mas raramente se envolvem no dia a dia operacional. Hoffman está sinalizando que quer trocar esse papel pelo contato direto com o produto, as equipes e os clientes da Manus.
A decisão reflete também uma mudança de prioridades pessoais de Hoffman. Aos 59 anos, o empreendedor parece querer usar seu capital de influência, reputação e experiência diretamente na construção de algo novo, em vez de exercê-lo indiretamente por meio de assentos em conselhos. O setor de saúde e descoberta de medicamentos é um dos poucos domínios onde a inteligência artificial ainda tem uma enorme lacuna a preencher, e Hoffman claramente acredita que esse momento, nos próximos cinco a dez anos, pode ser o mais importante da história recente da medicina.
Para o ecossistema de tecnologia e saúde, a entrada em tempo integral de Hoffman na Manus é um sinal de que a startup está pronta para uma fase de crescimento acelerado. Quando um dos cofundadores do LinkedIn e um dos principais articuladores do investimento da Microsoft na OpenAI decide largar tudo para se dedicar a uma empresa, vale prestar atenção no que essa empresa faz.
Fonte: TechCrunch – Reid Hoffman is leaving Microsoft’s board to go founder mode with startup Manus



