Depois de anos de especulação, resistência de Elon Musk às pressões do mercado e uma avaliação que cresceu em ritmo acelerado ao longo de mais de duas décadas, a SpaceX finalmente abriu seu capital na Nasdaq nesta quarta-feira, 11 de junho de 2026. O preço de abertura foi fixado em US$ 135 por ação, arrecadando US$ 75 bilhões e quebrando com folga o recorde anterior pertencente ao IPO da Saudi Aramco em 2019, que havia levantado US$ 24,9 bilhões.
Segundo reportagem do TechCrunch assinada por Tim Fernholz e Marina Temkin, a demanda foi extraordinária: houve quatro vezes mais pedidos do que ações disponíveis para compra, refletindo o apetite de investidores institucionais e individuais por uma das empresas mais icônicas da história da tecnologia e da exploração espacial.
Os números que entraram para a história
A SpaceX colocou à venda 555,6 milhões de ações ao preço de US$ 135 cada, levantando os US$ 75 bilhões em uma única oferta. O símbolo de negociação escolhido foi SPCX, e a empresa passou a ser listada oficialmente na Nasdaq, a bolsa de valores americana conhecida por concentrar as maiores empresas de tecnologia do mundo.
Para efeito de comparação, o IPO da Saudi Aramco em 2019 havia arrecadado US$ 24,9 bilhões e era até então o maior da história dos mercados financeiros globais. O segundo maior era o da Alibaba, em 2014, com US$ 21,8 bilhões. A SpaceX superou esses marcos com uma margem expressiva, consolidando seu status como uma das empresas mais valiosas do planeta.
Um mercado de apostas em criptoativos estava precificando as ações da SpaceX em US$ 167 antes da abertura formal, sugerindo uma expectativa generalizada de salto de aproximadamente 20% já no primeiro dia de negociação – um fenômeno conhecido como “IPO pop” e comum em ofertas de empresas de alto perfil com demanda reprimida.
Elon Musk e o maior beneficiário do IPO
Elon Musk, fundador e CEO da SpaceX, é o maior beneficiário da abertura de capital. O executivo detém aproximadamente 850 milhões de ações Classe A e tem direito a 5,6 bilhões de ações Classe B, uma estrutura que lhe garante controle efetivo sobre a companhia mesmo após o IPO.
A abertura de capital representa uma liquidez enorme para Musk e para os primeiros investidores da empresa, incluindo fundos de venture capital que apostaram na SpaceX quando a viabilidade comercial da exploração espacial privada ainda era questionada pela maioria do mercado. Investidores que entraram nas primeiras rodadas, décadas atrás, estão vendo retornos de centenas de vezes o capital investido.
A jornada da SpaceX até a Nasdaq
A SpaceX foi fundada por Elon Musk em 2002 com uma proposta radical: reduzir drasticamente o custo do acesso ao espaço por meio de foguetes reutilizáveis. Nos primeiros anos, a empresa flertou diversas vezes com a falência, salvando-se de acordo com o próprio Musk por questão de semanas antes de conseguir o primeiro contrato significativo com a NASA.
A virada começou com o Falcon 1, o primeiro foguete privado a entrar em órbita com sucesso, e se consolidou com o Falcon 9, cujo programa de pouso e reutilização de primeiro estágio mudou definitivamente a economia da indústria espacial. Mais recentemente, o Starship – o maior e mais poderoso foguete já construído – levou a empresa a outro nível de ambição, com planos de colonizar Marte no horizonte.
Nos anos que antecederam o IPO, a SpaceX construiu uma base de receita sólida e diversificada: contratos com a NASA para transporte tripulado à Estação Espacial Internacional, lançamentos comerciais de satélites para clientes ao redor do mundo, e a explosão da Starlink, a divisão de internet via satélite que já conta com dezenas de milhões de assinantes globais e se tornou uma fonte de receita previsível e crescente.
Por que agora?
A decisão de abrir o capital agora reflete uma confluência de fatores favoráveis. A Starlink atingiu um nível de escala que torna a SpaceX uma empresa de receitas previsíveis e crescentes, não apenas uma aposta especulativa em exploração espacial. O mercado de IPOs voltou a demonstrar apetite por empresas de tecnologia de grande porte após um período de retração. E as avaliações privadas da SpaceX haviam chegado a um patamar onde os primeiros investidores precisavam de uma via de saída para materializar seus ganhos.
Há também um componente estratégico: com acesso direto ao mercado público de capitais, a SpaceX pode financiar expansões futuras com mais eficiência, incluindo o ambicioso programa Starship e a eventual expansão da Starlink para cobrir novas regiões geográficas e segmentos de mercado. A empresa também pode usar ações como moeda para aquisições e retenção de talentos, algo que startups privadas têm mais dificuldade em fazer.
O que o IPO significa para a indústria espacial
A abertura de capital da SpaceX é um evento que transcende a empresa e sinaliza a maturidade de um setor inteiro. Há dez anos, a ideia de uma empresa privada de foguetes como uma blue chip do mercado financeiro soaria improvável para a maioria dos analistas. Hoje, com a SpaceX listada na Nasdaq e avaliada em centenas de bilhões de dólares, o setor espacial privado ganhou legitimidade permanente como classe de investimento.
Para outros players como a Blue Origin e a Rocket Lab, o IPO da SpaceX abre um precedente importante: o mercado público está disposto a valorizar o acesso ao espaço não apenas como ciência ou defesa nacional, mas como negócio comercial com múltiplos de receita comparáveis aos das maiores empresas de tecnologia.
No Brasil e na América Latina, o impacto mais imediato já está sendo sentido na expansão da Starlink, que se tornou um serviço crítico de conectividade para regiões sem acesso a infraestrutura de fibra ótica. Com mais capital disponível após o IPO, a SpaceX pode acelerar a cobertura e potencialmente reduzir o custo do serviço, ampliando o acesso à internet banda larga para milhões de pessoas que hoje dependem de conexões lentas ou inexistentes.
O maior IPO da história não é apenas um marco financeiro. É a prova de que o sonho de privatizar o acesso ao espaço, que parecia utópico no início dos anos 2000, se transformou em uma das histórias de negócios mais extraordinárias do capitalismo moderno. E Elon Musk, apesar de toda a controvérsia que carrega, está no centro dessa transformação histórica.



