Andrew Yang, ex-candidato à presidência dos EUA e fundador da Noble Mobile, tem uma tese provocadora sobre onde estará a próxima grande onda de inovação empreendedora: não em inteligência artificial de ponta, não em plataformas de consumo, mas em startups que consigam, de forma concreta, reduzir o custo de vida dos americanos comuns. Em uma entrevista ao TechCrunch, Yang apresenta uma visão de mercado que vai na contracorrente do mainstream do Vale do Silício.
Em um ecossistema obcecado com modelos de linguagem, agentes autônomos e fundações de IA, Yang propõe que os empreendedores olhem para um problema mais imediato e urgente: como as pessoas vão pagar moradia, educação, saúde e transporte à medida que a automação comprime empregos e concentra riqueza nas mãos de poucos.
A tese: inverter o modelo de extração de valor
Yang se diz inspirado pela farmácia Cost Plus Drugs, criada por Mark Cuban, que vende medicamentos pelo custo operacional, eliminando as margens tradicionais que inflariam os preços. Para Yang, esse modelo de negócio representa uma inversão filosófica fundamental: em vez de extrair valor dos consumidores, compartilhar com eles os ganhos de eficiência.
A lógica central é simples: se a tecnologia vai comprimir empregos e concentrar riqueza, as empresas que conseguirem oferecer bens e serviços essenciais com preços significativamente menores estarão preenchendo um vácuo crítico na economia. Yang identifica as categorias onde os americanos sistematicamente pagam a mais: moradia, educação, alimentação, combustível, transporte, mídia e telecomunicações. Cada uma dessas áreas representaria uma oportunidade bilionária para startups dispostas a operar com margens finas e modelo de compartilhamento de lucros.
IA, desemprego e a necessidade de novos modelos
A conexão entre a ascensão da inteligência artificial e a necessidade de reduzir custos de vida é central no argumento de Yang. Em suas palavras: “a IA vai sugar grande parte do valor e dos empregos, e então os americanos vão olhar e perguntar: como eu atendo minhas necessidades básicas?”
Yang não é ingênuo sobre o papel do governo nessa equação. Ele continua defendendo políticas como a renda básica universal (UBI), mas reconhece a incerteza sobre se o Estado seria o canal mais eficiente para redistribuir o valor gerado pela automação. “Há espaço para uma conexão direta entre o dinheiro e as pessoas”, afirma, sugerindo que empresas privadas podem funcionar como mecanismos de redistribuição mais ágeis e transparentes do que a burocracia governamental.
Para fundadores e investidores, essa perspectiva abre uma janela interessante. Em vez de pensar apenas em crescimento de receita e múltiplos de avaliação, Yang propõe que o sucesso de uma startup também seja medido pela economia real gerada para seus clientes.
Noble Mobile: o experimento em telecom acessível
Yang não está apenas teorizando. Em setembro de 2025, ele lançou a Noble Mobile, uma operadora de rede móvel virtual que oferece planos de telefonia significativamente mais baratos do que as operadoras tradicionais. O diferencial vai além do preço: a empresa recompensa clientes que usam menos dados, devolvendo parte dos lucros aos assinantes mais econômicos.
Desde o lançamento, a Noble Mobile cresceu para “milhares e milhares” de clientes e já gera “milhões em receita”, segundo Yang. O modelo é rentável por cliente, mas a empresa compartilha os lucros com os assinantes na aposta de que consumidores que economizam ficam mais tempo na plataforma e a recomendam espontaneamente para amigos e família.
Yang quantifica o impacto potencial do modelo: uma economia mensal média de 50 dólares, investida e capitalizada ao longo de 40 anos, poderia totalizar aproximadamente 24 mil dólares por assinante. Para famílias de renda média, esse valor representa uma base significativa para a aposentadoria. A Noble Mobile opera em parceria com a Light Phone, fabricante de telefones minimalistas que se posiciona contra o consumo excessivo de dados e o fenômeno do doomscrolling.
O ecossistema emergente de startups de custo de vida
A Noble Mobile não está sozinha nessa aposta. Yang identifica um ecossistema emergente de empresas que compartilham a filosofia de margens finas e impacto real nos custos do consumidor. Além da Cost Plus Drugs e da Light Phone, ele menciona o Misfits Market, uma loja de alimentos online que reduz desperdícios para oferecer preços competitivos.
O padrão comum nessas empresas é interessante: todas lucram por meio de eficiência operacional extrema, em vez de margens infladas. Todas constroem lealdade de cliente a partir de economia real, não de funcionalidades marginais. E todas operam em setores onde o consumidor comum paga mais do que deveria por ineficiências estruturais do mercado.
Para Yang, esse padrão não é acidental. Representa uma forma diferente de criar valor, que pode se tornar muito mais relevante à medida que a pressão sobre o poder de compra dos trabalhadores aumenta com a automação.
A resistência do capital de risco e o viés pró-IA
Yang reconhece, no entanto, que convencer investidores a apostar nessa tese não é tarefa fácil. O capital de risco americano encontra-se em um momento de concentração extrema em torno de empresas de IA, deixando oportunidades em outros setores cronicamente subfinanciadas.
Ele relata um encontro revelador ao buscar investidores para a Noble Mobile: “Tive pelo menos um investidor que me disse: ‘Adoro você, Andrew, quero trabalhar com você. Se você conseguir transformar isso em uma empresa de IA, investiremos.'” A anedota ilustra a dificuldade de captar recursos para negócios orientados ao consumidor com missão social, por mais rentáveis que sejam na prática.
A ironia não passa despercebida. O mesmo ambiente tecnológico que produz as condições que tornam necessária a redução do custo de vida, com automação e concentração de riqueza, é o que mais dificulta o financiamento de empresas voltadas para resolver esse problema.
Um argumento sobre estabilidade sistêmica
Yang vai além do altruísmo ao defender sua tese. Ele apresenta um argumento pragmático dirigido aos próprios milionários e bilionários do setor: a concentração de valor nas mãos de poucos “é simplesmente ruim para todos.” Sociedades com desigualdade extrema geram instabilidade social, e até quem está no topo da pirâmide econômica tem interesse em manter o poder de compra das camadas mais amplas da população.
Para fundadores dispostos a questionar o groupthink prevalente no Vale do Silício, a mensagem de Yang é clara: “Pense de forma maior e mais ampla sobre tentar resolver problemas, e não se submeta tanto ao pensamento de grupo, porque há oportunidades valiosas por aí.”
Em um momento em que a narrativa dominante é a de que toda empresa precisa ser uma empresa de IA, a aposta de Yang em startups que simplesmente reduzem o que as pessoas pagam por serviços essenciais parece quase radicalmente simples. E talvez seja exatamente por isso que vale a pena levar a sério.
Fonte: TechCrunch – Andrew Yang thinks the next big startup opportunity is lowering the cost of living



