A corrida por óculos inteligentes tem um novo unicórnio. A Even Realities, startup de hardware fundada em 2023 por ex-engenheiros da Apple, anunciou nesta segunda-feira (6) a conclusão de uma rodada de financiamento pré-Série B de US$ 150 milhões, atingindo uma avaliação de US$ 1 bilhão. O aporte foi liderado pelas gigantes chinesas Meituan e Tencent, com participação de investidores anteriores como Hillhouse, Sequoia China e Northern Light Venture Capital.
A rodada posiciona a empresa entre as raras startups de hardware a alcançar o status de unicórnio em tão pouco tempo, e chega em um momento em que o mercado de computação vestível passa por uma reconfiguração acelerada, impulsionada pela popularização dos óculos conectados e pela crescente demanda por dispositivos que ofereçam experiências digitais sem a necessidade de segurar um smartphone.
Ex-Apple com visão própria
O CEO e cofundador Will Wang viveu anos dentro da Apple, trabalhando nos projetos do Apple Watch e do iPhone antes de apostar na ideia de construir uma nova categoria de produto. Junto com outros cofundadores com experiência em tecnologia e no setor de óculos de luxo, incluindo a marca escandinava Lindberg, Wang fundou a Even Realities com a convicção de que os óculos serão o próximo grande salto na computação pessoal.
“Óculos inteligentes são, provavelmente, o dispositivo de computação pessoal mais pessoal que as pessoas já usarão”, afirmou Wang em entrevista. A declaração resume a filosofia da empresa: enquanto concorrentes tentam integrar câmeras, sensores e telas brilhantes nos óculos, a Even Realities apostou em uma abordagem radicalmente diferente, centrada em privacidade e elegância visual.
A linha de produtos: do G1 ao G2
O primeiro produto da empresa, o G1, lançado em 2024, foi descrito como os óculos waveguide mais leves disponíveis no mercado na época. A startup superou sua meta inicial de 10 mil unidades vendidas, validando a premissa de que havia demanda por óculos discretos com funcionalidades de display.
O modelo atual, o G2, lançado em novembro de 2024, é o carro-chefe da linha. Com preço de US$ 599 apenas pela armação, o produto oferece um heads-up display (HUD) integrado ao campo de visão do usuário sem o uso de câmeras. Com lentes de grau ou o anel inteligente R1 incluso, o ticket médio dos pedidos chega a aproximadamente US$ 1.000.
Esse posicionamento sem câmera é uma escolha deliberada. Em um mercado onde os Meta Ray-Ban geraram controvérsia justamente pelo uso de câmeras ocultas para capturar imagens em espaços públicos, a Even Realities se diferencia ao remover completamente esse elemento. A empresa aposta que usuários corporativos e profissionais preocupados com privacidade pagarão um prêmio por essa escolha.
A tecnologia por trás dos óculos
O segredo técnico da Even Realities está no que a empresa chama de Even HAO (Holistic Adaptive Optics), um sistema óptico proprietário que integra microchip, waveguide e suporte a grau em um único design coeso, em vez de combinar componentes separados desenvolvidos de forma independente. Essa abordagem vertical permite controle total sobre qualidade de imagem, consumo de energia e compatibilidade com prescrições ópticas.
O resultado prático é um par de óculos que parece visualmente comum, sem as lentes volumosas ou a aparência alienígena que muitas vezes afugentou consumidores de wearables anteriores. A aposta da empresa é que a discreção estética é tão importante quanto a funcionalidade técnica para a adoção em massa.
Perfil do cliente e expansão geográfica
A empresa cresceu rapidamente: de 30 a 40 funcionários em 2024, chegou a 300 a 400 colaboradores atualmente. Seu perfil de cliente atual é bem definido: homens profissionais entre 30 e 50 anos, sendo que aproximadamente um terço são executivos de empresas.
Geograficamente, os Estados Unidos já representam mais de 50% dos usuários e são o mercado de crescimento mais rápido da empresa. Japão, Coreia do Sul, Oriente Médio e Europa também figuram entre os mercados relevantes. Curiosamente, a empresa fabrica seus produtos na China, mas ainda não realiza vendas no mercado doméstico chinês.
A participação dos investidores Meituan e Tencent na rodada pode sinalizar uma mudança nesse cenário, eventualmente abrindo caminho para uma estratégia de entrada no mercado chinês, onde tanto a Meituan quanto a Tencent possuem capacidade de distribuição e relacionamento com varejistas e plataformas de e-commerce.
O anel inteligente R1: o controle nas mãos
Além dos óculos, a Even Realities comercializa o R1, um anel inteligente que funciona como dispositivo de navegação para o sistema. Por meio de toques e gestos na superfície do anel, o usuário pode interagir com as informações exibidas no HUD dos óculos sem precisar recorrer ao smartphone. O acessório amplia o potencial da proposta da empresa ao criar um ecossistema de dispositivos interconectados e discretos.
Concorrência acirrada, mas diferenciada
O mercado de óculos inteligentes nunca esteve tão aquecido. A Meta lidera em volume com os óculos Ray-Ban, focados em câmera e áudio. O Apple Vision Pro ocupa o extremo premium com realidade espacial, mas carrega peso, preço e aparência que limitam adoção cotidiana. Startups como Brilliant Labs e Nreal também buscam seu espaço no segmento.
A Even Realities posiciona o G2 em uma camada intermediária ainda pouco explorada: produtos que cabem no rosto como óculos comuns, mas entregam informações contextuais discretamente ao longo do dia. Esse “óculos de uso diário com HUD” é a aposta da empresa para conquistar profissionais que precisam de informação rápida sem interromper o fluxo de trabalho.
O que vem a seguir
Com US$ 150 milhões em caixa e uma avaliação de unicórnio, a Even Realities deve acelerar seu ritmo de desenvolvimento de produto, expansão de equipe e distribuição internacional. O CEO Wang tem sido cauteloso sobre projeções exatas, mas deixou claro que a empresa enxerga os óculos inteligentes não como um nicho de entusiastas, mas como a próxima plataforma de computação pessoal em massa.
Se essa visão se concretizar, os US$ 150 milhões desta rodada podem parecer apenas o começo de uma história muito maior. A questão é se a Even Realities conseguirá sustentar o ritmo em um mercado onde gigantes como Apple e Meta possuem recursos ordens de magnitude maiores.
A notícia foi publicada originalmente em inglês pelo TechCrunch.



