O IPO mais inusitado de 2026 no mercado de tecnologia não veio do Vale do Silício. Veio de Milão. A Bending Spoons, conglomerado tecnológico italiano fundado a partir dos restos de uma startup dinamarquesa, estreou na Nasdaq no início de julho avaliada em aproximadamente US$ 22 bilhões, após um valuation pré-IPO de US$ 11 bilhões. Os quatro cofundadores, que mantêm mais de 80% do poder de voto, tornaram-se bilionários no papel do dia para a noite.
Mas quem é a Bending Spoons? Para boa parte dos investidores americanos, a resposta pode surpreender: trata-se da empresa que controla o AOL, o Vimeo, o Evernote, o WeTransfer, o Eventbrite e dezenas de outros aplicativos e plataformas que, somados, atendem mais de 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo.
Uma private equity disfarçada de startup
A Bending Spoons não se encaixa nos moldes tradicionais de uma empresa de tecnologia. Seu modelo de negócio é mais próximo do private equity do que de uma startup de produto: a empresa compra ativos digitais em declínio ou subavaliados, corta custos agressivamente, centraliza operações em um sistema unificado de produto, engenharia, dados, monetização e IA, e passa a extrair valor dos produtos adquiridos sem a intenção de vendê-los.
O CEO Luca Ferrari resume a filosofia da empresa com clareza: a Bending Spoons identifica produtos com bases de usuários estabelecidas e receita recorrente, mas que sofreram de gestão ineficiente ou foram deixados para trás pelas empresas controladoras. Em seguida, aplica seu sistema operacional proprietário para reorganizar esses ativos.
Em 2025, a empresa analisou mais de 2.500 oportunidades de aquisição, conduziu 200 análises aprofundadas e fechou 6 aquisições. Ferrari estima que existem mais de 1.000 negócios digitais como alvos potenciais, representando uma receita agregada estimada em US$ 400 bilhões.
A lista de aquisições: de Evernote ao AOL
A trajetória da Bending Spoons é melhor contada por sua lista de compras. Em 2022 e 2023, a empresa adquiriu o Filmic (câmera profissional para smartphones) e o Evernote, demitindo quase toda a equipe do aplicativo de notas logo em seguida. Em 2024, o ritmo se acelerou: a empresa comprou o Meetup, o StreamYard da Hopin, o Issuu, o WeTransfer e o Brightcove por US$ 233 milhões.
Em 2025, o portfólio cresceu ainda mais: Komoot, Harvest, Vimeo por US$ 1,38 bilhão, AOL e Eventbrite por US$ 500 milhões. No início de 2026, veio o Tractive, plataforma de rastreamento de pets. A empresa nunca vendeu nenhum ativo que adquiriu, e Ferrari diz que a intenção é manter todos “para sempre”.
Os “Spooners”: uma equipe pequena, altamente produtiva
Um dos aspectos mais fascinantes da Bending Spoons é o tamanho diminuto de sua equipe central. Os chamados “Spooners”, colaboradores permanentes do núcleo da empresa, são aproximadamente 620 pessoas em 2026. Desse total, apenas 286 foram contratados em 2025, selecionados de uma base de cerca de 800.000 candidatos.
O resultado é uma produtividade por funcionário notável: em 2025, a empresa gerou US$ 2,57 milhões de receita por Spooner, mais que o dobro dos US$ 1,12 milhão registrados em 2023. Com receita total de US$ 1,31 bilhão em 2025 e mais de 500 milhões de usuários ativos mensais, a Bending Spoons opera em uma escala que empresas com equipes dez vezes maiores raramente alcançam.
Vale ressaltar que, além dos Spooners, a empresa adicionou cerca de 1.830 funcionários via aquisições de AOL, Eventbrite e Vimeo. No entanto, a expectativa é que apenas “poucas centenas” permaneçam após os processos de reestruturação de 2026.
IA como acelerador do modelo
Ferrari é explícito sobre o papel da inteligência artificial na estratégia da empresa. Em declaração recente, afirmou: “À medida que a IA nos permite realizar mais com menos pessoas, a escalabilidade do nosso modelo de aquisição e transformação deve melhorar”. A empresa usa IA extensivamente em seus processos internos de engenharia, produto e monetização para aumentar a eficiência operacional sem precisar expandir o quadro de funcionários proporcionalmente ao crescimento do portfólio.
A proposta é sedutora para investidores: uma empresa que cresce comprando ativos estabelecidos, usa IA para operar com equipes enxutas e extrai receita recorrente de produtos que as pessoas já usam, sem depender da criação de novos produtos do zero.
Nomes de peso na lista de investidores
A Bending Spoons atraiu uma constelação pouco convencional de investidores. No lado corporativo, figuram o ex-CEO do Google Eric Schmidt e o cofundador do Instagram Mike Krieger. No lado das celebridades, a lista inclui o tenista Andre Agassi, o ator Bradley Cooper, o cantor Maluma, o músico The Weeknd e a dupla The Chainsmokers.
A presença de celebridades pode parecer superficial, mas reflete o apelo do modelo para pessoas que buscam diversificação em investimentos tecnológicos com perfil de retorno mais previsível do que uma startup tradicional.
As polêmicas: demissões em massa e aumentos de preço
O modelo da Bending Spoons não é isento de críticas. Cada aquisição é seguida de demissões significativas. Após comprar o WeTransfer, a empresa reduziu 75% da equipe em setembro de 2024. Com o Vimeo, os cortes foram igualmente acentuados. O cofundador do WeTransfer, Nalden, chegou a criticar publicamente as decisões da empresa em dezembro de 2025, anunciando que construiria um serviço alternativo.
Além das demissões, a empresa frequentemente aumenta os preços das assinaturas após adquirir produtos, o que gera insatisfação entre os usuários mais antigos. A lógica, segundo a empresa, é que os produtos estavam subprecificados em relação ao valor que entregavam.
O que esperar do futuro
Com o IPO concluído e capital fresco disponível, a Bending Spoons deve intensificar seu ritmo de aquisições. A empresa tem um pipeline identificado de mais de 1.000 alvos potenciais e a convicção de que seu modelo se torna mais escalável conforme a IA reduz os custos operacionais.
A questão central para investidores é se o modelo se sustenta à medida que os ativos adquiridos envelhecem e se o mercado de plataformas digitais em declínio continua a oferecer oportunidades com o retorno esperado. Por ora, os números falam por si: US$ 1,31 bilhão em receita, 500 milhões de usuários ativos e uma avaliação de US$ 22 bilhões sugerem que o mercado acredita na tese.
A reportagem original foi publicada pelo TechCrunch.



