A Índia anunciou um conjunto de incentivos financeiros que soma quase US$ 20 bilhões para impulsionar a fabricação doméstica de smartphones e semicondutores. A estratégia é clara: romper a dependência das cadeias de fornecimento globais concentradas na China e transformar o país no segundo maior polo manufatureiro de eletrônicos do mundo.
O pacote inclui um programa de incentivo à fabricação de celulares no valor de 625 bilhões de rúpias (cerca de US$ 6,5 bilhões) ao longo de cinco anos, com vigência até março de 2031. Em paralelo, o governo indiano ampliou seu investimento em semicondutores para 1,28 trilhão de rúpias (aproximadamente US$ 13,3 bilhões). Juntos, os programas sinalizam a mais ambiciosa aposta industrial da Índia em décadas.
O anúncio foi feito pelo ministro de tecnologia da informação do país, Ashwini Vaishnaw, e já está atraindo atenção de analistas globais do setor. A pergunta que todos se fazem é: será que a Índia consegue, desta vez, o que não conseguiu nas tentativas anteriores de criar uma indústria doméstica de eletrônicos?
China domina, mas a distância diminuiu
Os números ajudam a contextualizar o desafio. Em 2025, a China detinha 63% da produção global de smartphones, enquanto a Índia ficou com apenas 18%. A diferença ainda é grande, mas a trajetória é favorável à Índia. Há dez anos, o país praticamente não fabricava smartphones. Hoje, a Apple produz cerca de 25% de todos os seus iPhones em solo indiano, por meio de empresas como a Foxconn e o Grupo Tata.
Samsung, Xiaomi, Oppo e Vivo também já instalaram linhas de produção no país, atraídas por incentivos fiscais anteriores e pelo crescente mercado consumidor indiano. A nova rodada de incentivos vai além da montagem básica e tenta atrair fabricantes de componentes, que são a parte mais difícil e lucrativa da cadeia de valor.
Os incentivos em detalhe
O programa de smartphones oferece incentivos entre 2,25% e 5% sobre as vendas elegíveis, com um bônus adicional de 1,5% para empresas que usarem componentes fabricados localmente. Esse mecanismo de incentivo duplo tenta, ao mesmo tempo, atrair montadoras e criar demanda por um ecossistema de fornecedores locais de componentes.
O governo projeta que o programa vai gerar uma produção total de 39 trilhões de rúpias (cerca de US$ 405 bilhões) até março de 2031 e criar aproximadamente 60.000 empregos diretos. São números ambiciosos, que dependem de fatores externos como a estabilidade geopolítica, a disposição das empresas globais de diversificar suas cadeias de fornecimento e a capacidade da Índia de resolver seus gargalos logísticos e de infraestrutura.
Por que agora
O timing não é coincidência. Desde 2022, a tensão entre China e Estados Unidos acelerou o movimento de empresas ocidentais para diversificar a produção fora da China. A Apple foi uma das primeiras a reagir, expandindo significativamente sua produção na Índia nos últimos três anos. Outros fabricantes seguiram, seja por pressão de clientes americanos e europeus, seja por risco de tarifas e sanções.
A Índia soube aproveitar essa janela. O país combina algumas vantagens únicas: uma força de trabalho jovem e numerosa, custos laborais competitivos, um sistema legal em inglês, que facilita contratos com empresas ocidentais, e um governo que, desde 2020, adotou uma postura mais ativa em política industrial do que nas décadas anteriores.
“As marcas de smartphones estão buscando economizar em cada centavo”, afirmou Tarun Pathak, diretor de pesquisa da Counterpoint Research. A produção local de componentes é justamente o caminho para essa economia, especialmente com a memória ainda cara e as flutuações cambiais tornando as importações mais imprevisíveis.
O desafio dos componentes e das marcas locais
O maior gargalo da Índia é a produção de componentes. Montar um smartphone é relativamente simples; fabricar os chips, displays, câmeras e baterias que o compõem é outro nível de complexidade industrial. A China construiu esse ecossistema ao longo de três décadas. A Índia quer percorrer o mesmo caminho em cinco anos.
Para isso, o governo adicionou um incentivo extra de 3% para empresas que investirem em design de produtos e pesquisa e desenvolvimento dentro do país. A ideia é não apenas montar produtos de terceiros, mas estimular o surgimento de marcas indianas competitivas internacionalmente. No passado, marcas como Micromax e Karbonn chegaram a liderar o mercado doméstico antes de serem derrubadas por fabricantes chineses com produtos mais baratos e avançados.
Hoje, o cenário é diferente. As restrições ao Huawei em mercados ocidentais abriram espaço. A desconfiança com produtos de origem chinesa cresceu entre consumidores em vários países. E a Índia tem uma história diferente a contar, o que pode ser um ativo comercial genuíno para suas marcas locais.
O que os analistas dizem
Navkendar Singh, vice-presidente associado da IDC, afirma que “a Apple está diretamente posicionada para se beneficiar” do programa, dado o volume já significativo que a empresa produz no país. Para a Apple, ampliar sua presença manufatureira na Índia também serve como proteção geopolítica: uma cadeia de fornecimento menos concentrada na China reduz o risco regulatório para a empresa no mercado americano.
Pankaj Mohindroo, presidente da India Cellular and Electronics Association, foi ainda mais otimista, defendendo que a Índia pode atingir entre 35% e 40% da produção global de celulares no longo prazo. Esse número parece ambicioso hoje, mas era igualmente improvável para a China nos anos 1990.
A questão é se a Índia terá paciência e consistência de política industrial para manter o foco ao longo de vários governos e ciclos eleitorais. Esse, historicamente, foi o grande calcanhar de Aquiles das iniciativas industriais indianas. Os incentivos são generosos, mas o sucesso de longo prazo dependerá da execução e da capacidade do país de desenvolver um ecossistema de fornecedores robusto, que hoje ainda é dominado por empresas chinesas.
A reportagem original foi publicada pelo TechCrunch em 15 de julho de 2026.



